O Cão Sem Refrão
Elias: Estou de rastos Bé…estou de rastos…arff
Entra o cão rastejando as orelhas imundas nos meus calcanhares.
Benedita: Que foi que aprontaste desta? É aquela cadela que mora no outro lado da cidade e que nunca viste? Loucamente apaixonado sem sequer a conheceres?
Elias: O que eu lati em serenatas noites sem fim, a música que lhe dei…e agora segundo as línguas viperinas anda de amores por um vira-lata chamado Bobi de Niro. Ouvi latidos, rumores.
Benedita: Que querias tu, meu estúpido? Sempre empenhado e ocupado ajudando rafeiros no Canil Municipal! Ajudar desconhecidos…és burro cão!
Elias: Foram tantos os poemas e latidos uivados à minha musa desconhecida…
Benedita: Pois bem imbecil! Alguma vez foste ter com ela? Que bosta de cão és tu que não arreia as patas e cauda ao encontro da sua descabida paixão? De que material és feito? Lata? Vira-lata? Tens é pouca lata e muita ferrugem. Acção, cão! Estás a ficar demasiado humano.
Elias: Ela tinha que entender que sou um animal muito generoso e dou tudo! Tudo!
Benedita: Dás tudo e perdes o que realmente importa, meu andróide! Doar ossos e coleiras no Canil Municipal na iminência de seres traiçoeiramente mordido por raivosos e sarnentos? Dá aos teus, cão morcão! Primeiro aos teus! E essa tal cadela do outro lado da cidade, pelo que sei até mudou o tarifário para o Cão-Moche a teu pedido e só vinte minutos apressados e um “eu já te ligo, agora estou a passar por um túnel”. Morreste no túnel? Achas que a cadela te espera ainda?
Elias: Mas…eu tentei ligar uma semana depois…
Benedita: Uma semana depois??? Seria tempo suficiente para a donzela conhecer um Pedigree e criar umas cinco ninhadas! Ahahaha…que inércia, que regredido és! Inerte!
Elias: Ando muito ocupado, primeiro estão os meus necessitados, depois tudo se verá. Prometi que iria ter finalmente com ela, mas depois…não sei se merecia o sacrifício e ela mora tão longe. Ela que viesse ter comigo, igualdade de direitos e deveres!
Benedita: O quê? Enlouqueceste? Injectaram-te comodismo. Estás a tornar-te um humano desprezível, de palavras e pouca acção. Nem pelas desmedidas paixões vale a pena arrastar um metro da zona de conforto. És um deslumbrado, de rápidas emoções e de desinteresse mais veloz ainda. És amorfo, cão! Apaixonado por uma caniche que nunca viu…ganha tino, palerma!
Elias: Eu que lhe dei tanta música…
Benedita: E pelos vistos nem chegaste ao Refrão! Que esperavas? Elas não se contentam por latidos longínquos, elas anseiam provas concrectas, demonstração de dedicação, meu asno! Latidos e música? Poemas? Tem dó…nem tiveste curiosidade de morder as orelhas e snifar a sua cauda…cão tanso!
Eilas: Ela agora chora o tarifário…
Benedita: Para a próxima que iniciares uma música acaba-a!
Arff!
Parvo Louco
Os voláteis infelizes reclamam setas de bico de borracha, tão inofensivas como o chupa-chupa roubado pelo cobarde ao meu Elias, o meu estimado e peludo quatro patas, inocente e parvo. Parvo, digo e repito, parvo que não o é, mas parece. Pior louco é o que se julga louco igual aos outros. Sim, loucura saudável que nem uma couve verde, é coisa que se come, arrota, despeja e se quer lavrar na terra de novo. Louco em chão contaminado? Não obrigada!
Eficiente Mental
O eficiente mental do meu cão tem dislexia no lado do hemisfério da compreensão. O meu Elias é assim, e assim o é desde que com as minhas sucintas compreensões de cão abandonado, lhe coloquei um osso mal nutrido, o qual nunca agradeceu.
Elias: Baaa…nem se compara ao suculento bife da minha antiga dona…
Benedita: Grande cão! Estupor faminto. Dá cá o prestigioso osso, pois não faltará língua que o aproveite…seu…seu cão!
Se eu fosse cão sentir-me-ía ofendida por ser comparada a quadruples. É que essas coisas de duas pernas não as sabem usar, nem metade do cérebro sabem possuir. O meu cão, vá que não vá, identifica a fêmea pelo pêlo e pelo odor em contraste dos menos peludos alguns pêlos, que nem cheiro sentem e já se julgam donos da fêmea sem cio.
Elias: ai aquela cadela ali do bairro perto da ribeira…que belos caninos e que bela orientação nasal…
Benedita: Ó cão! Raios te partam se não te eduquei para pareceres estúpido sem o seres! Deixa lá a cadela em paz e sossego! Pareces o Tono do bar da Florência, que a cada traço de café um lábio refere, lá se julga dono do estampado escarlate. Não sejas burro cão! Sê cão!
Sê cão, meu burro!
A Curiosidade Matou o Cão Curioso
As patas de Elias no volante parado, focinho bússola apontado a norte acidental, não Ocidental. A curiosidade matou o gato, a curiosidade matou o cão. Cão imbecil! Anda para frente, acelera essas patas unhadas e rosna para a frente, curioso filho de mórbidos falatórios de dia seguinte. Segue parado a corrente de carros para morder o olho ao outro lado da faixa, a acidentada.
– Cão estúpido! Anda mas é que quero chegar a tempo ao veterinário. Já não suporto esse teu cheiro a cão e tenho pressa que seques o cheiro a cão molhado. Curioso de um raio!
- Que foi? Eu é que estou a conduzir, sim? Eu quero ver o acidente, Arrffff, grrrrr!
Mentecapto! Afunilados na auto-estrada pela retrógrada fome de tragédia.
– Ó Elias! Deixa lá o acidente do outro lado da faixa!
Não se anda para a frente quando se insiste em olhar para trás.
- Pronto, vamos lá, tanta pressa para quê? Já me deixaste com o focinho de trombas.
Cão retrógrado…
Porcos Sem Espinhos
Desenho: Filipa Barrote
Com o avanço regressivo da tecnologia, ainda se fazem descobertas gloriosas das ainda carnes primordiais a planar devagar a genuinidade. A carne de porco é afrodisíaca. Sim, diz-se…Ora, a carne de porco pode sê-lo desde que não haja espinhos a atrapalhar. A outra face dos espinhos é o efeito afrodisíaco da carne de porca, vaca, cabra, vitela, galinha, cadela, bifa, burra, mula, camela e égua na espécime masculina humana. Estudiosos ainda da coisa mais fraca, aquela que cede, que se fere e sangra é a conclusão gloriosa de que quem se encontra só com os seus espinhos é mais feliz a ser espicaçado, espezinhado, humilhado, ignorado, atrocidado ou morto pelos aguçados espinhos do companheiro. Não tarda a heroína é vendida em pacote oferta colada ao primeiro parágrafo dos livros escolares.
Há porcos-espinhos. Não há porcos sem espinhos.
Lantejoula

O Adérito descalça a areia pequena e lantejoula dos colarinhos da blusa ao areal reflecte o sol, expõe a luz, o Adérito encerra os olhos com as mangas do vestido de tafetá da areia azul reflectida nos olhos do peixe que nada, nada faz, esconde nas meias a lantejoula do Adérito e pesca o cabelo fino de brilho luminoso perfumado de pequenos céus escondidos por jocosas nuvens, figuras que o vento lá em cima desenha e molda o algodão dos ares. A lantejoula espreme tecidos nos corpos vestidos de água fria de olhar tão frio, o peixe ignora o isco brilhante de dedos de sol. Atira as lantejoulas, Adérito! Atira-as e esquece-as, elas não são as tuas escamas, por ti não emanam luzinhas que acendeste e as deixas acesas até as confundires com o sol que te queima a sanidade. Cai, Adérito! Cai no isco real que o peixe distraiu para ti e nada, nada para longe da areia onde deixei o meu vestido de lantejoulas.
Idoso Criminoso
O idoso é impune. O mesmo de anos passados matara, violara, roubara. O idoso é impune. A idade é a sua prisão, a sua misericórdia, a sua salvação? O idoso é santo, respeitado, amado, cuidado…e o novo? O que nunca matou, violou, roubou? É preso, desrespeitado, mal amado, desprezado, só porque ainda não recebeu os louvores de não ter falecido antes da hora.
A longevidade do idoso justifica o criminoso!
Parede do Miocárdio

As paredes do meu quarto sofreram um enfarte do miocárdio. As quatro! Elas lamuriavam-se de dores de rodapé, de humidade, dos socos e da mobília da coisinha do andar de cima e fartas de me ouvirem lamuriar de falar às paredes quando tenho mesmo debaixo dos meus queixos uma janela e uma porta antipática como um empregado de mesa a tresandar a tremoço. Eu não dei fé dos queixumes das desgraçadas ali espetadas com quadros de ponto de cruz horrorosos, outros de aguarela que se tenta artisticamente pincelar. As teias de aranha até me fazem lembrar a juventude dos lenços transparentes asfixiados no pescoço. Ficam-te bem paredes! Sim, tenho que vos dar uma pintadela, mas qual a vossa cor preferida? Nunca definem o consenso da virada para Norte que prefere o azul ao cinzento da virada para Este, ao verde da que enfrenta o Oeste e o laranja que afronta o Sul.
Surpreendida como a ruga que nasceu da noite para o dia, vi as minhas quatro paredes caírem triangulares. A porta permaneceu direita, mais parecia uma coluna vertebral de uma bailarina. A janela, essa ficou à janela a ouvir os pássaros comerem minhocas saídas fresquinhas da terra. Eu, eu que sempre tenho que socorrer tudo e todas, é o cão, é a avó e os filhos desta, são os pássaros do gato arreganhado da minha sobrinha. E de mim? Quem me acuda quando tiver as quatro paredes rachadas e manchadas do tempo? E quando me cai o tecto nas mãos? Quem?
Morte Cavalheira
Olham-me como se tivesse as pernas no lugar das orelhas. Sou generosa e mais cavalheira que um cavalheiro. Levanto-me cedendo o meu lugar ao senhor grávido, ao senhor fora de prazo, ao senhor pesado de compras plásticas, ao senhor que comeu alho e aguardente. Levanto-me e empurro as costas daquele a quem dificultam seguir em frente, tropeça no meu calcanhar e sorrio-o acenando com a cabeça abraçada à indiferença grávida de batata cozida a murro.
Sou mais cavalheira que o cavalheiro que não cede lugar à senhora magra de murros, à senhora pesada de fome, à senhora que faz figas à morte, empurra-a, tropeça a reumática vestida de negro, vejo-a ceder à falha da foice atravessada na garganta.
Morre! Sua…sua…morte cavalheira!
És Como Uma Cólica
És uma cólica que cresce e desce do calcanhar à cabeça, abastece no coração e segue viagem atordoada, chorando um arrastar nas paredes do estômago, ora para cima, ora para baixo que todos os Santos e Anjos ajudam, descarrega-te cólica inoportuna nos meus tecidos vitais e sai sonoramente como quem grita um espirro.
Cerimónia
Pediu a mão em casamento
Ficou sem a mão
Pediu contribuição à cerimónia
Pernas para que te quero!
Sem mão e sem pernas
Pagou com cerimónia
Perdeu a cabeça
Sem mão
Sem pernas
Falta de cabeça
Falta à cerimónia
Envelheceu-se
O cabelo fugiu
Sem cerimónia numa união sem pés nem cabeça
Uma mão acaricia cabelo ruivo
Cerimoniosamente deixado cair
Sem coração
Quando Eu For Grande

Quando eu for grande
Quero entrar em transe
Engolir esquisito cogumelo
Chamando-lhe caramelo
Adoçar a mente cristalizante
Olvidando o castelo
Em transe construído
Fingindo solo belo
Cogumelo fértil brotou
Caramelo instruído
Derretendo meu transe
Assim que eu for grande
Poesia Poesia

Poesia banal
Aquela floral
Poesia vulgar
Aquela que escreve pássaro e mar
Poesia evidente
A que se julga inconsciente
Poesia imatura
A que descreve a lua
Poesia esmola
A de dedicatória de colega de escola
Poesia previsível
A menos sensível
Poesia sem humor
A aclamada ao amor
Poesia sem dom
Sempre o mesmo tom
Poesia lida
A mais redigida
Poesia séria
Aplaude a miséria
Poesia aos céus
De bradar aos céus
Poesia banalizada
A mais valorizada
Poesia criativa
Ao escasso que a viva
A Batida

O quatro rodas sem bateria
A dois pés marco compasso
Se uma guitarra teria
Serviria a bateria
O quatro rodas canta a seu passo
A bateria morreu
A melodia não se perdeu
Componho ao volante
A batida da bateria ao Romeu
Que seu coração mutante
Meu quatro rodas abrangeu
O bom falante se ergueu
Aos ouvidos talhou cortante
Bateria do coração
Obedeces ao ritmo do peso marcante
Estagnada sou
Sem meu quatro rodas andante
Clave de Lá

As artroses difundem nas regras impostas nas claves de Sol
Nas oitavas dos sustenidos debaixo dos meus solos a solo
A tua clave de Fá desafina na minha escrava de Lá
Os teus clavinhos de Sol repetem nas negras teclas os teus sons que não pretendo tocar até ao fim da tua obra que não me quer por sustento de alicerce musical
O misterioso elemento da união das costeletas criadoras e suas crias
Te comporto afinada para me ouvires ao som da mais incrédula banda sonora
Sou as teclas na tua melodia que não afina nunca.
Cão Poético
Lá vem o meu cão cheio de poesias vomitando agrados e comida a duas patas juntas suplicar, o meu cão conciso em siso cerrado reclama o que me deve e pede, cão idiota! Burro sem orelhas e sem peito, me apresentaram sabendo eu ingénua, servil, do canil à valeta, ao conforto do meu e teu sofá, o aconchego rejeitáste pela recordação da tua aquela outra estranha dona que não me entranha quando no teu último suspiro seu rosto lembráste.
Cão cabrão! Cão sensível na cauda baixa! Perdoar-te-ei quando tiver também cauda a lamber o chão.
Avesso
Ao contrário do avesso, a armadura oxida o sangue encoberto de oxigénio que respiro pelo contrário, inspiro as veias circunscritas pelo sufoco nascido, provocado, equivocado desse calor frio de pele não querer sentir.
Caminhando pelo reverso da respiração exaltada nenhum paraíso traz veia atrasada, circula sem dó a tua estrada esburacada.
Gordinhos Formosos

A gordinha passeia os gordinhos rebentos entrançados nas gordinhas mãos
O gordinho rabo preso entre quatro pernas assentes
O gordinho marido rebenta o estômago nas sandes gordinhas
Os gordinhos rebentos aliciam gordinhos hambúrgueres
Uma gordinha mão cai sobre uma gordinha bochecha
O gordinho rebento lança gordinhas lágrimas
O gordinho marido deita gordinhos perdigotos
A gordinha manápula acerta outra gordinha bochecha
Gordinhas cordas vocais emagrecem gordinhas paciências
Gordinhos rabos deambulam em gordinhos encontrões
Gordinhos escondem magrinhos desejos
Gordos de magro assalariado
Fantasma Sem Fio

Vejo um fantasma no corredor da vida
Corre sem as mãos no fio que o prendia à terra
Pede as mãos da ajuda da libertação
Esquece o tempo que morre sem perdão
Ouço-o, geme, estremece sem voz
Salta a parede que se separa visível
Solta, liberta e prende-se a nós
Perdoo pelo inferno que te vê tão previsível
E liberto-te para o corredor dessa vida
Corto-te o fio com as mãos que vês
E vejo-te partir sem a minha voz desaparecida
Esquecendo que alguma razão te perdi
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