Coisas escritas

reflexões da Benedita Maldita

Gargalo

gargoyle

“Sabes o que é aquilo, Bé?” e apontou para uma esquina superior de uma Igreja. Sei lá, respondo eu, ansiosa por correr e deslizar-me pelas montanhas ali perto, verdes pontilhadas de amarelo daninho. “Não sabes?, Ai não acredito , uma pessoa que se diz interessada em arte…Bé, tu não sabes nada, surpreende-me, caramba!” Corri ao declive da montanha e aprendi o nome do cheiro do feno, da erva e das flores amarelas teimosas em embelezar a paisagem. Que raio de obsessão pela arte feita. Os nossos passeios são autênticas visitas de estudo e no fim tenho que apresentar o relatório, ou em último caso uma tese! O Diogo Luís era tão espontâneo como uma máquina de café. Eu sei lá que nome deram àquela coisa na ponta da esquina do edifício!! Isto significa que não aprecio arte como aprecio um bom perfume ou um belo quadro? E sei lá eu de que é feito o perfume. “não sabes…ahahahah….não sabes…”chiça, nem o meu sobrinho de cinco anos tem reacções dessas com algum colega que não saiba quanto é 1+1. “ó Bé, chama-se Gárgula…”

Olha, farta de ti pelo gargalo estou eu!!

Novembro 8, 2009 Publicado por Benedita Maldita | contos | | Sem comentários ainda

Fumo ou Vapor?

Fumo “O seu fumo incomoda-me!”. Olho para  a  voz de cabelo armado até ao candelabro, uns olhos parecidos com aqueles batráqueos que se costuma engolir vivos. “Como disse, minha senhora?”. Repetiu “O seu fumo incomoda-me, não entendeu?” A senhora ou é estrábica ou tem estrabismo intelectual. Permaneci indiferente. Farta de aturar loucos, bolas! Não me deixei consumir enquanto consumia a minha quente sopa de legumes e feijões. “Menina! o seu fumo está a incomodar a estrutura do meu penteado, quer fazer o favor de mudar de lugar?” Fumo? Vapor, minha senhora.

Analisando ao detalhe a velha senhora, os olhos de batráqueo estavam embaciados como um pára-brisas em tempo húmido.

Benedita: Desculpa, minha senhora, eu não me mudo daqui, a única solução é que me ajude a comer a sopa, para que o vapor se dissipe.

Senhora: Se a menina não se importar…agradecia até.

Pedi um prato e dividi a sopa. O vapor foi de boleia com a colher provocando lágrimas de tinta negra que contornavam o olhar, deslizando como lágrimas gota a gota na sopa.

Depois evaporou-se…

Novembro 7, 2009 Publicado por Benedita Maldita | Coisas Gerais | | Sem comentários ainda

Ofereço-te Gambas

card_salada

Diogo Luís: Quero uma salada, mas os tomates têm que ser vermelhos, vermelhos, muito maduros! Senão nem vale a pena trazer.

Era sempre a mesma conversa. Eu já me começava a encher  daquele “Conde”como uma barragem com as comportas fechadas . Travessa na mesa ornamentada por gambas e algumas ameijoas.

DL: Pega lá umas gambinhas, olha como te trato como uma donzela…tens tanta sorte comigo.

Ele oferecia-me algumas gambas, ou seja, não eram divididas a meias. Eu venci nessa disputa:

Benedita: Se me estás a oferecer a tua parte gamba como se fosse um colar de ouro é porque não as deves apreciar – sorriso mais ou menos irónico – pois!

Ficou ofendido como quem é apanhado a desfrutar o que se desdenha. Comeu-as todas! para meu castigo.

DL: Olha-me só aqueles tronquinhos…ai…que gente tão horrorosa.

Pergunto-me que faço com este snob pseudo intelectual. É  a paga, é karma! Terei nesse vivência extra-dimensional remota envenenado o homem, muito lentamente com tomates? Verdes , não maduros. Não sei…por algum motivo partilho parte da película do filme da vida com ele.

Café e a “dolorosa”. Dolorosa era o que ele chamava à conta. Dolorosa seria se ele pagasse pelo menos a minha dose de gambas que rancorosamente estripou. Começava a ficar preocupada com a minha vida desafogada com este “senhor”. O meu orçamento esvaziava como uma bexiga e já não havia muita mais água para tornar a forrá-la. Sempre a almoçar e jantar fora ao fim-de-semana?? E, segundo ele, é Director Comercial de enlatados de atum e sardinhas, vivia com os pais aos 48 anos, sem descendência e nunca usou anilha no anelar. Ao menos uma lata de atum, conta a intenção! Já muita sorte tinha com as gambas (excepto hoje). “Ai que sorte tu tens em teres arranjado um namorado como eu…quem dera a muitas, sabias? Tenho a certeza que nunca foste tão mimada, viajas, levo-te a concertos, cultivo-te…ai  Bé…”

E ficava com aquele sorriso meio inerte e ao mesmo tempo retirava um pedaço de gamba com um colarinho. Porco! Tantas manias e olhem!

Benedita: Não tens lenços? Pega lá um. São 0,05 €.

DL: Ai Bé, és tão forreta…Deus mo livre!

Novembro 5, 2009 Publicado por Benedita Maldita | Coisas Gerais | | 1 Comentário

Carnaval Assimétrico

fantasma

No Carnaval fantasio-me de senhora das limpezas. Não tinha ideias originais como vestir-me de fada, freira, bomboca, bruxa, pijama, Indiana, palhaço, anos sessenta, etc.

A bata da cozinha ainda a cheirar a fritos e com nódoas, uma saia quadrada até à rótula, collants brancos e umas peúgas verdes abaixo das rótulas.. Nos pés, as chinelas felpudas cor-de-rosa roídas pelo Elias e corroídas pelo óleo ainda em fúria. Uma caixa de plástico de detergente servia de transporte para as chaves, o porta-moedas, perfume, espelho, clips, caneta, batom, lenços, canivete e uma escova. Luvas de plástico e no cabelo um lenço florido colorido e numa das mãos um espanador do pó. Nesse Carnaval conheci o Ronaldo. Era amigo de um amigo da minha amiga. Trazia um fato e gravata quadriculados. Parecia uma  mistura de palhaço com um projecto urbanístico. O sapatos deviam ser do pai do bisavô. No rosto trazia a máscara do “Fantasma da Ópera! “Era músico, por sinal, tocava harpa ou uma coisa assim. Só lhe via metade do rosto. Conversámos, bebemos, dançámos e de vez em quando passava com o espanador pelos quadrados do fato, mas ficavam intactas aquelas cores sem dizer nada umas às outras. E as calças? Estava mesmo ridículo, teve gosto!

Ronaldo: Quem te deu a ideia de te mascarares à sopeira? estás mesmo um prato!

Benedita: Não preciso que me dêm ideias. Tenho as minhas próprias…

Pela noite adentro (ou afora) fomos conversando dentro do previsível. A noite amanheceu, descalço as luvas de plástico e bloqueio aqueles primeiros incomodativos raios do dia.

Ronaldo: amanhã posso ir buscar-te ao emprego?

Benedita:…hmm…está bem, se quiseres. Saio às 17h.

Parece que este gostou de mim, mesmo vestida à senhora de trabalhos domésticos aborrecidos como os discursos do Rebelo de Sousa.

No dia marcado e com dez minutos de antecedência vejo o Ronaldo a aproximar-se da loja. “Poças! será que o rapaz nem foi a casa? perdeu o comboio? Está com a mesma indumentária…mas que raio…até as polainas estão onde estavam ontem.” Apenas retirou a máscara. Conheci a outra metade do rosto. Que dez minutos tresloucados, não passam e enquanto dobro roupa e atendo clientes só vejo quadrados e mais quadrados, e polainas. Rosto simétrico. Não aprecio coisas simétricas, faz com que uma metade seja idêntica à outra. Não acredito em gêmeos, nem em almas (gêmeas). É monótono, desinteressante sem nada diferente a explorar. Não vejo beleza na simetria, só na distorção.

Ronaldo: Olá, como vês sempre vim – e sorriu.

Benedita: …pois…não foste a casa? Ainda estás mascarado…

Ronaldo: eu visto-me assim, só me mascarei com a máscara.

Benedita: ah…olha Ronaldo, desculpa, mas ontem não te disse…sabes como é, eu tenho namorado há algumas semanas, toca clarinete aqui na Junta da Freguesia…esqueci-me de te contar no calor do Carnaval. E também agora não dava para tomar um café, tenho que ir desparasitar o meu cão…

Ronaldo: ok, prontos! Fica bem então…

O rosto dele ficou aos quadrados torcidos, coitado, ficou desgostoso.

Fui para casa. Vesti a bata da cozinha, as luvas de plástico, as chinelas, o lenço no cabelo “Querido Elias!!” e salta de alegria, lambe o ar, levanta voo com a rotação da cauda, parte-me mais um biblô, lambe o meu rosto assimétrico e pede biscoitos, daqueles em forma de gato. Cão interesseiro!

Novembro 4, 2009 Publicado por Benedita Maldita | contos | | Sem comentários ainda

Na Moda

moda

Bolas! não tenho nada para vestir, muito menos para despir. Observo o Elias, não queima fusível em particularidades aparentemente de leve decisão. Mas bolas! Nada. O tracção às quatro patas contenta-se com aquela cor rafeira, nem sabe se puxou ao pai ou à mãe. Seja Verão, meia-estação e veste aquela cor amarela a correr para o castanho, parece um daqueles quadros de feno do Van Gogh. Já eu pareço a imitação de uma revista de concursos de quem veste o melhor botão, as botas que se usaram no ano passado são como filetes de pescada do dia anterior, a pulseira fica super bem com o batom da miúda que nunca vi nem carnuda nem em ossos. Quem me dera ser cadela também. Tanto tinha que vestir como para despir. E sempre na moda!

Novembro 4, 2009 Publicado por Benedita Maldita | pensamentos | | Sem comentários ainda

Mário, o Cão

O meu cão, o Mário, hoje acordou com a cauda apontada para o subsolo. percebo logo assim que o meu ângulo de visão o detecta…ora, o tipo, que é um inerte, nada faz, mas põe sempre o despertador para as 7.00 da matina. Desliga-o com a cauda, circula a língua pelo focinho, entorna baba pelo acrílico do chão (mancha tudo, o tipo) e diz: “ahhh, onde está a comida?” seguido de um sonoro arroto. Hoje nem arrotou….desconfio logo. Viu-me, por acaso cruzou-se por mim no corredor, nem “olá” disse….o gajo…era o que mais me faltava…”que foi? Estás a olhar para mim?? vê lá se queres que fale francês…ai, mau mau!” E eu, bem, o melhor é ignorar. Coçou algumas pulgas, deslizou as patas, sacudiu o focinho e acendeu um cigarro.” ó anormal, não sabes que o tabaco mata?”, argumentei eu, preocupada com a saúde dele. Ele nada! Ignorou-me e ainda por cima pôs-se a roer os chinelos do meu falecido companheiro, que o trouxe cá para casa e podia era tê-lo levado com ele…”ai mata?? mas quem morreu foi o teu maridinho, que levava uma vida saudável. Valeu-lhe de muito! tss tss!”. O anormal a pensar assim nem olha para os lados ao atravessar numa passadeira e com o sinal verde para peões. Olhem para ele. Não faz nada de nada. Acorda, come, bebe água, vai à rua, defeca e urina, deita-se e dorme o dia todo…vida de cão? Vida de cão é a minha, que nem cauda tenho para exprimir a minha disposição.bulldog-anglais-1

Novembro 4, 2009 Publicado por Benedita Maldita | Coisas Gerais | | Sem comentários ainda

Não Respiro!!

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Antes de entrar no carro desesperou Diogo Luís um “espera!!” sofrido: solas sacudidas, a terra a esta pertence, restos de migalhas saltam para os bicos dos pássaros, mas nunca, nunca decididamente no interior do automóvel do Diogo Luís. Experiente no que respeita a interiores de carros, aquele suspendeu-me: Mais limpo que um ex toxicodependente. Reluzia tudo o que não era ouro. Como conseguia o Diogo Luís conduzir ainda permanece um mistério, aquele brilho fulminaria os óculos do Ray Charles. Tive até receio de embaciar os vidros com a expiração. Não respirei durante toda a viagem…

Novembro 3, 2009 Publicado por Benedita Maldita | Coisas Gerais | | Sem comentários ainda

Pedante Constante

arrogante

Uauuuuuu, que colosso! Já viste que arquitectura, Bé?? Era apenas uma paragem de táxis, pensei. Saiu do carro embevecido e foi ter com um taxista sonolento que mastigava lentamente uma sandes de beterraba. Oiça, quem foi o arquitecto desta maravilha? O homem baixou o rádio que transmitia som local, “eu sei lá…vá perguntar à Câmara.” Se quiser levo-o lá, são 5,01Euros.
Foi ter comigo e pediu-me 2,51 Euros e que me despachasse a entrar no táxi. Nem tive tempo de limpar o cadáver do insecto qure tinha morto no carro dele com o dedo. Entramos apressados, sentei-me em cima de um saco de plástico e devo ter partido alguns ovos e juro que ouvi um sofrido “piu”. O homem conduzia ora com as mãos no volante, ora com as mãos na sande e cantarolava ao som do rádio. “É o meu sobrinho que está a cantar…tenho muito orgulho nele!” Devia ser o único a ter orgulho mais quem o fez e pariu. Chegamos à Câmara e o Diogo Luís cegou tudo e todos com a ânsia. Inserimo-nos numa sala bolorenta, da cor dos dentes de quem toma dez cafés e fuma cinco maços por dia. Uma senhora cabeluda, com hastes pelo rosto redondo, sobressaltou com a nossa entrada e pelo olhar inexpressivo do  Diogo Luís. “Bom dia, como posso chegar à pessoa responsável pela paragem de táxis?” A senhora elevou-se de uma cadeira ruidosa, assoou o nariz e mordeu uma sande e meia de beterraba, “quem são os senhores?” Ajeitou uma haste partida ao mesmo tempo que fungava uma gripe. Sou um gajo interessado e culto pela cultura do meu país…quero que me diga quem arquitectou aquela obra aqui no meio de nenhures. A Dona Silvina Cueiros (estava escrito o nome numa placa em cima da secretária) vacilou a grandiosidade do Diogo Luís, “ai menino, num sei…vá ali ao primeiro andar, eu só atendo telefones.” O Diogo Luís riu-se com ironia, “Não sabe?? Por favor, então põem gente aqui a trabalhar que não sabe nada? Como é possível? Você devia sim de estar a limpar casas-de-banho ou em casa a cozinhar em banho-maria para o seu Manel…gente do povo…chiça!” A D. Silvina retirou as hastes e antecipou um espirro, “olhe, vá apanhar na primeira sílaba do meu apelido, sim?” Voltou a sentar-se, a cadeira gemeu e continuou caminho seguindo os rastos da tinta que o tubérculo sangrava. O Diogo Luís não entendeu o insulto. Eu sim.

Novembro 2, 2009 Publicado por Benedita Maldita | Coisas Gerais | | Sem comentários ainda

Porque, porqeu

Esta disfunção, quase uma anomalia, o ser-se disléxico, só traz merda. Começa no princípio: mandam-nos ler um simples texto e depois o professor pede para sucintar…chiça! Que tormento! Eu lia palavra a palavra, sem as conjugar. “Menina Benedita, sucinte o que leu!” Deus Meu”, eu só li palavras, agora explicar, conjugar? Peça ao esperto da classe que não inteligente, além de boa memória.

E lá descrevia a “inteligente” da sala todo o texto e a única coisa que fixava era o Francisco três mesas atrás de mim ao lado direito.


Novembro 1, 2009 Publicado por Benedita Maldita | Coisas Gerais | | Sem comentários ainda

A Esquecedora

casa de michael

Pensadores, pensantes, ignorantes, excêntricos…somos de tudo um pedaço destes. Eu que mergulhava ser mesmo era uma pensadora, assim para aliviar o vazio do dia-a-dia a lavar loiça, aspirar, desinfectar sanitas e outros. E às vezes me perguntam “Que tens feito?”, ao qual respondo: nada. E ficam a olhar para mim como se eu fosse um edifício em estado impludido. Eu respondo, frustrada com a minha vida de insecto” Mas tu pensas que eu sou quem, a Paris Hilton?”

Eu nunca pergunto o que as pessoas fazem, mas como passam elas.

Novembro 1, 2009 Publicado por Benedita Maldita | pensamentos | | Sem comentários ainda

O Dejecto

A senhora idosa movia-se com apenas um dente, mas a perspicácia tinha os dentes todos “Menina, o seu cão fez coisas ali nas escadas, tem que limpar”. Eu, envergonhada nunca o faria (aquelas coisas) , mas lá porque uma coisa que seja minha não me responsabilizo pelos seus actos menos impróprios. Ou serei conivente? É algo em órbita mesmo que seja um filho?…é o meu cão! Ainda por cima um cão que nem marca registada tem. A velha é uma nojenta! tem 97 anos, nunca morreu, tem oito filhos, dos quais três faleceram e ela intacta como um muro a sabor a cimento. Deve ser da naftalina. E vê-se no olhar dela, são faíscas bombardeadas de inexpressão. Evito aquele olhar, nem é olhar, são olhos, duas coisas arredondadas, sempre iguais, sem espaço para um decilitro de lágrima.

Quatro bocados de papel higiénico catados, dois cilíndricos produtos do intestino. E eu sei lá se foi o meu Elias! Há pelo menos mais dois respirantes  de quatro patas neste aglomerado de betão! O raio da velha, deve ser má má como as tempestades, e Deus a resguarda connosco, deve ser para gozo, só pode! Me disse o dedo ocular de uma amiga dela que não tomava banho e que dormia coberta por um lençol de linho puro. branco como naftalina.

Segundo o filho mais novo e o mais tóxicodependente deles todos me disse “É ruim a velha, a única doença que teve foi uma unha encravada e uma espécie de gripe das aves. Uma vez caiu e bateu com a cabeça numa cadeira…quem se partiu foi a cadeira.”

Raio da velhaca. E depois queixam-se nas objectivas da TV, que coitadinhas, os filhos as tentam envenenar com bolas de naftalina no Natal.

Vá Elias, para a próxima faz bolas de cianeto à velha.velha

Novembro 1, 2009 Publicado por Benedita Maldita | Coisas Gerais | | Sem comentários ainda

Mudanças

Passagem_das_Horas_by_DeadlyWitch[1]A mudança da hora atrasa-nos. Quando esta atrasa, é claro. Demoro a rir-me de uma anedota com piada só passados sessenta minutos.

O Elias anda de roda de mim como uma abelha e as patas são molas saltitantes e seus olhos ficam desvairados por uma hora. O atrasado mental do cão nem mesmo com o telemóvel que lhe foi oferecido pela madrinha consegue ver as horas ou ler os noticiários “Ó burro, agora só te dou os restos dos restaurantes daqui a uma hora.”

Prometi ao Serafim que lhe ligava às 16:15, mas já são 18:20. É por isso e por outras que todos me deixam a toda a hora, ora ela se atrase, ora ela se adiante. Acusou-me de atrasada, irresponsável e lenta de memória “És muito lerdinha…” Insultou-me como um vagão, o Serafim, enfim. Fiquei desfeita em vários retalhos perdidos durante uma hora. Não fosse o Elias compor-me, para ele não há hora para a sua Benedita “Pega lá a tua comida ó rafeirinho!” Daqui em diante já sabes que há-de ser sempre esta a hora de ruminares, está bem? Tu és esperto…esperto não, inteligente! Aprendes à velocidade da luz.

É hora de mudança, Elias! Agora tudo acontece uma hora antes. Tudo!

Outubro 30, 2009 Publicado por Benedita Maldita | contos | | Sem comentários ainda

Vincos A Mais

vinco

O Elias não me atende o telemóvel. Raios quebrem o peludo do cão! Querem ser modernos e depois não dão a mínima importância aos objectos. A quantidade medonha de bonecos de borracha horrendos espalhados pela casa e nenhum com vestígios de dentadas. São todos iguais! Fico preocupada. Disse-me que ía ao Canil Municipal visitar um velho amigo abandonado por uma família de oito pessoas, por uma semana no Algrave. Ficaram todos instalados à sombra de uma Arriba e lá ficaram enterrados. Bem feito!

Benedita: ó Luís Diogo, estou deveras preocupada com o Elias.

Levanto-me da perna dele “Ai Bé, que chatice, já fizeste dois vincos nas minhas calças…tss…detesto que te sentes no meu colo!” Sacudiu repetidamente a mão nos vincos como se fosse um ferro de engomar. “És mesmo panilas…” pensei. Tinha aquela psicose com a roupa. Retirava-a da mala e dobrava-a melhor que um contorcionista. Tudo direitinho, tudo nos vincos, nem as senhoras tratam um vestido Versace com tanto carinho. Se ele me tratasse como a uma camisa, eu estaria sempre abotoadinha, bem composta e muito tratada.

Benedita: insensível! Eu aqui preocupada com o meu cão e tu assanhado com uma ou duas linhas a mais nas calças…mesquinho!

Tentei de novo. Desligado. A comida já está ressequida dentro do pratinho às bolinhas liláses e quadrados amarelos.

LD: ai, tanta preocupação por causa de uma coisa com quatro patas, se ainda fosse um casaco amarrotado Bé. Tens de dar importância a outras coisas, sei lá, como economia, arquitectura, política…que básica, não pensei que fosses assim.

Olhei para o prato do Elias e comecei a fazer o jantar. Ele, sentado no sofá, ainda a tentar desmarcar aquelas dobras provocadas pelas minhas nádegas. Estava atento a um programa para gente intelectual. Jantar na mesa.

Comeu, mastigou, bebeu, mas nem abriu a boca a não ser para o garfo e o copo (e um naco de pão).

Benedita: então, estava bom o empadão de toucinho com chocos?

LD: …ah sim…

Benedita: Parece que não gostáste muito, achas que tinha chocos a mais?

LD: Não…faltava um bocado de sal e sujei um bocado aqui o colarinho com a tinta.

Oiço umas arranhadelas na porta. É o Elias, finalmente!

Benedita: onde te enfiáste? Porque não atendeste? Achas que um telemóvel é mais um daqueles brinquedos esbugalhados?

Elias: desculpa…não tinha rede…

Benedita: não tinha rede? Num canil não faltam redes!

Aproximou-se do Luís Diogo “Ai, ó Bé, tira-o daqui! Está a cheirar-me todo! Ai que nojo, que cheiro! Já estou cheio de pêlo…” afastando-o ligeiramente com o pé.

Benedita: olha lá, se não gostas do meu animal, o melhor é ires-te embora para tua casa vincar o teu interior e colocar sal nas calças, ajuda a fixar os tecidos. Depois ligo-te!

LD: ok, eu vou, mas…não te importas de me dares 5€ para ajudar nas deslocações?

Sim, dei-lhe a nota, mas antes vinquei-a bem ao meio. Choco!

Que bom Elias, ficamos só os dois aqui sentados no conforto do sofá e dás-me lambidelas na cara toda, olhas-me mais que humanamente. Adoro-te cão!

Agora vamos ver aquela novela que tanto gostamos, tu com o teu focinho nas minhas pernas, amarrotas-me as calças e deixas-me cheia de pêlos, mas eu não me importo!

Outubro 28, 2009 Publicado por Benedita Maldita | contos | | Sem comentários ainda

BIP BIP

BIP O sujeito do jantar a um dia da semana, porque sexta o filho estudante universitário regressa aos braços do papá e todo o resto do fim -de-semana tem outros afazêres que donzela alguma terá o poder de os alterar. presumo que o homem sofra de algum modo do complexo de “autismo”.

Ele, coitado e com que sacrifício ligava-me todos os dias para cumprimentar ou como corria o meu dia, etc. Dos nossos quatro encontros a meio da tarde e a velocidade de TGV, os “sinais” educadamente enviados. tais como: “Olha para aquela desenvergonhada, andar na rua com uma saia até às nádegas…que horror, mau aspecto. Sim, na intimidade, num jantar é aceitável e legítimo, mas…a mãezinha nem deve saber que a filha só usa um cinto assim para o largo”

Ou “Eu em casa gosto de andar nu, às vezes vou até ao quintal , os vizinhos espreitam, mas estou-me marinbando!”

Ou “Gostas de vinho? Que tipo de vinho? Maduro e velho? Estou a ver que gostas de coisas velhas.”

Ou “Cheiras bem e és muito gira…eu gosto de saborear por exemplo um bolo, mas se não cheirar bem…ui”

Eu não sou nenhum bolo de arroz, é cada comparação! Além de gostares da superficialidade de algo comestível, também és carnívoro e se o cheiro se espalhar pelo ar suavemente até ao ponto responsável do prazer do teu cérebro, tu trincas.

Desgosto o teu. Durante a semana o primeiro jantar em tua casa?? Não posso querido, nesses dias estou deveras ocupada.

Ele: ok, beijinhos para ti também.

Imagino o desconsolo do filme cortado a meio por ele realizado: o lombo recheado e o vinho tinto preparados e guardados na estante da cozinha, a garrafa já devia respirar até. Combina para uma terça-feira, lá calhava bem para ele essa noite, pois chegaria a casa antes do lusco fusco. Iria buscar-me a casa…buscar-me? Os homens já não montam o cavalo ao encontro da madame. Eu iria ter a casa dele abriria-me a porta nuzinho como veio ao mundo, apenas com uma avental com o desenho do Bip Bip a tapar as partes e comentaria desiludido ” Então Benedita? porque é que vens de saia até aos calcanhares e de blusa de flanela até ao queixo? e esses sapatos, são mais rasos que uma pista de Bowling…”

Benedita: é para te tirar o apetite, embora a tua comida até cheire bastante bem. Agora que tenho o aspecto do Bolo-Rei mastigado pelo Dr Cavaco Silva, mas ainda cheiro a petúlias, ainda te apetece trinchar-me?

Tem cuidado que o Coiote é que acaba sempre prejudicado e olha que o Bip Bip não faz nada por isso. É melhor arranjares um avental com um desenho do Coiote.

Outubro 24, 2009 Publicado por Benedita Maldita | contos | | Sem comentários ainda

O GATO PONTILHADO

O Elias, o meu cão foi dar uma das suas curvas diárias. Aparece-me acompanhado por um gato, faltava-lhe um olho e a cauda parecia o porta-chaves da minha vizinha de oitenta e seis anos. O coitado aparentava vestígios de luta.
Benedita: Elias, quem é este gato?
Elias: salvei-o de uma luta com a gata dele que pelos vistos tem a unha mais afiada que a língua.
Benedita: e agora, que lhe faço? é melhor levá-lo ao médico.
Gato: NÃO!! Tenho medo de médicos, descobrem o olho, depois são as patas, depois é o estômago e vai-se a concluir estou cheio de doenças. Nunca!
Pelos vistos a zanga foi pegada e o Elias é que os despegou.
Gato:…hm…gatas, são todas iguais, se gostamos delas não nos ligam, se não gostamos arrancam-nos os olhos…são todas iguais.
Elias: eu tenho mais sorte, as cadelas são sempre cadelas e gostamos delas assim.
Benedita: vá, gato, não penses assim, não são todas iguais, vais ver.
Gato: ver? só com um olho? desta não me refaço, tirou-me a sétima vida esta gata malvada. E nem gostava dela…
Benedita: olha, pelo menos ainda tens um olho. Eu ponho-te aí um pouco de mercúrio…
Gato: NÃO!! O mercúrio serve para medir a febre, não quero!
Elias: se quiseres vamos à procura dela e arrancamos-lhe as orelhas.
Gato: o quê?? Ía ficar contente, ela só tem quadros do Van Gogh na viela dela.
Benedita: então escolhe o Pontilhismo de Seurat. Imagina um quadro em branco e cada ódio, rancor que tiveres contra ela, acrescenta um ponto, de preferência colorido.
Gato: eu não vejo bem as cores agora só com este olho.
Benedita: inventa. Fá-lo todos os dias, um ponto e mais outro até teres finalmente o quadro todo. Não queiras o quadro todo de uma só vez, sim? Só assim te libertarás dessa gata. Pouco a pouco.
Gato: Elias, a tua dona devia ser gata, mas das boas. Vamos daí beber um copo à viela do Chaneco!
Elias: posso ir Benedita?
Ide lá! Não precisam de tantos olhos para ver tudo.
gato[4]

Outubro 23, 2009 Publicado por Benedita Maldita | contos | | Sem comentários ainda

Aguarde mais um bocado, sim?

Depois de uma entrevista para um desemprego, pediram-me para comparecer no dia seguinte às 12h para formação. No outro dia e às 12h acabadas de dar o último segundo, entro no estabelecimento.
Recepcionista: é para a formação?
Benedita: Sim
Recepcionista: Aguarde então, por favor.
Sentei-me numa das quatro cadeiras de um verde couve. Reparo que os braços das cadeiras estavam arranhadas “devem ter gatos aqui”, pensei. Os minutos correram, peguei em uma ou duas revistas nada interessantes e olhei para o pulso “poça, já passam vinte minutos”
Benedita: olhe, ainda vai demorar muito?
Recepcionista: já não deve demorar muito…
Continuei sentada naquele verde que me consumia, pareciam cadeiras revestidas com restos de esparregado. Trinta minutos passaram, eu olhava para ela a ver se me dava alguma satisfação do género “Peço desculpa pelo atraso, mas o Sr Alcino tem problemas de pele e deve ainda estar a besuntá-la, ou deve ter ido levar a mulher à escola que ainda fica um pouco longe”. Nada! Começo a ficar mais irrequieta que uma formiga, balanço a perna em sinal de ansiedade “Ainda por cima custou-me levantar da cama e apanhei chuva no cabelo para ficar aqui a penar mais que um panado. bem, já passa quase uma hora depois do combinado, será que esta gente tem noção que está viva? Muitas vezes me pergunto quem foi o génio que inventou as horas, elas para a maioria das pessoas nem existem!
Benedita: Olhe, eu não sei porque me pediram para estar aqui às 12h, eu tenho assuntos inadiáveis ainda por tratar.
Tinha nada…
Recepcionista: olhe, o Sr Alcino está doente e vem de propósito para dar esta formação. Mas você quer trabalhar ou não?
Benedita: se não quisesse acha mesmo que estaria aqui à hora prevista? quem não sabe nem quer trabalhar pelos vistos são vocês. Eu por acaso sabia que o senhor estava doente? então estando nós na era das comunicações seria só avisar e adiar para outro dia. Acha mesmo que se quero trabalhar tenho que aguardar naquelas coisas verdejantes até às 15h? Dormir por cá? Que falta de respeito a falta de pontualidade, francamente, minha senhora…e digo mais, se quiserem marcar algo comigo por favor indiquem uma hora, eu estarei aqui e exigo que o formador esteja também!
Recepcionista: como queira…boa tarde!
Uma hora à espera e de quê? de nada. Tempos perdidos e podia ter feito tanto, ter acontecido tanto. Tinha mais que tempo para arranjar o buço, encontrar uma nota de 50 € no chão não estivesse ali a vegetar, podia ter encontrado alguém que me desse oportunidade de receber um ordenado acima da média…tanta coisa…
Afinal não são gatos que arranham os braços daquelas cadeiras, são outros como eu e pelo estado das arranhadelas bem esperaram.

Outubro 22, 2009 Publicado por Benedita Maldita | contos | | 1 Comentário

MUITO ENCONTRARÁS…


Quarto encontro:
Ele: Estás diferente…não foste à praia?
Benedita: sim, fui, mas as ondas estavam contra a minha corrente.
Ele: Contra quê?
Benedita: ouve…afinal que queres de mim, poça?
Ele: Acho que és muito gira…não és propriamente nenhuma Broke Shields, mas também não és exactamente uma deputada dos Verdes.
Benedita: Francamente ó Santos Ribeiro, também não és pinheiro com pinhas e azeitonas que esperava ver crescer no canto da minha janela virada para Oeste. Queres o quê de mim?
Ele: acho que és gira, quero convidar-te a jantar em minha casa, mas nunca às Sextas, Sábados e Domingos.
Benedita: Calha bem, nesses dias tenho que mudar as toalhas da cozinha, levar a minha bisavó a casa do meu tio, ler os artigos das empresas com cotações na bolsa muito favoráveis ou não e outras funções inflexíveis para me encontrar contigo nos dias da semana mais apetecíveis e livres para um quinto encontro.
Ele: Não me leves a mal, mas tenho o meu filho comigo, um gajo com 27 anos que precisa da asa do paizinho, achas que vou abdicar dele por tua causa?? Chiça, vives em que atmosfera? E tenho jantar/almoço em casa da família todos os sábados!
O que devia ter dito e não disse: Tens razão, uma senhora sem filhos não tem raízes prendidas como desculpa para a prisão de se relacionar com outros frutos caídos, podres, mas frutos ainda.

Outubro 21, 2009 Publicado por Benedita Maldita | contos | | Sem comentários ainda

CONTRA-NÃO


“As mulheres devem ser independentes dos homens”. Concordo contigo Serafim, concordo. Agora te pergunto: Os homens devem ser independentes das mulheres? Não me parece Serafim…e fica sabendo, eu não andei a queimar sutiãs por aí, até porque ainda nem tinha idade para tal, mas não quer dizer que não tenhais que andar sempre no lado mais perto da estrada, levantar da cadeira no primeiro e outros encontros, pagar o jantar, o café, a cerveja ou o gin…creio que quando nos tiram o sutiã não é para queimá-lo…ou será?

Outubro 21, 2009 Publicado por Benedita Maldita | pensamentos | | Sem comentários ainda

SE A CORTESIA FOSSE UM QUADRO…


No terceiro encontro.
Ele: olá, chegaste há muito?
Benedita: Nã, cheguei ainda não tinhas chegado. Não me viste? Olha, pedi um cachorro-quente, ainda não têm gatos siameses. Também queres?
Ele: Estou tão cansado…seis clientes e nenhum quer assentar o traseiro na segurança. Estás gira hoje, foste à praia?

Benedita: Fui, só um mergulho nas águas frias me tornam única, mesmo sem olhos verdes ou grandes com pernas de centopeia.
Ele: ah… – expressão inteligente – ah…
Benedita: olha, estava eu a pensar…
Ele: Olá Sandra, estás boa? Ah sim, em Cuba? Ora conta lá…sim…ahahahahah….porra, eu não tenho férias….sim….ahahahahah…já não ligavas há muito, era para te ligar, mas tenho tido a chaleira no lume, no entanto e deves entender…sim…ahahahah…
Benedita: Ó Tó, traz-me a ementa e um palito, por favor – parecendo espalhadamente inteligente pelas galinhas das mesas vizinhas – obrigada!
Ele: A sério?? Não me digas, depois de tanto tempo ele foi ter com a outra? Pois…sim, comprei o último álbum do Sardet, adoro! Está calor aí?…sim…pois…ahahahhahahah…
Benedita: Olha Tó, traz-me a ementa de outro café, acho que estou a ficar com a perna dormente, mas mesmo assim os dedos afincam para a tosta-mista.
O Tó, competente como um chapéu em tempo de chuva trouxe finalmente o meu cachorro e o do Samuel.
Ele: Olha, Quica, vou ter que desligar, tenho na minha frente um cachorrinho-quente à minha espera, estou cá com uma fomequinha…tá…beijoca….
E eu, espantada não me espantava que desligasse o telemóvel por causa da “cachorrinha-quente” do outro lado da aresta.

Outubro 21, 2009 Publicado por Benedita Maldita | contos | | Sem comentários ainda

E LI…

Quando conheci o meu cão, o Elias, com o focinho babado por entre as duas linhas ferrugentas e duras vi logo que seria meu. Assim como quando se conhece o “tal”. Mas tal nunca conheci…coisas que se ouvem, diz-se.
Levantou o focinho, babou as mangas do casaco de verniz e disse: “Tenho a certeza que a tua casa não tem tantas linhas riscando a minha liberdade”. Peguei no bicho por uma carraça e várias pulgas aproveitaram a boleia aos assentos do meu automóvel de verniz. Ah que conforto, disse ele, o Elias. Entretanto ligou a ar-condicionado com uma das unhas das patas que lhe faltavam. Tens nome ó cão? perguntei. O olhar respondeu “és capaz de ler?” e lia…e lias sim, Elias!

Outubro 21, 2009 Publicado por Benedita Maldita | contos | | Sem comentários ainda