Torre de Controlo

A árvore de Natal de um Shoping, onde por vezes me oferecem o café (gostam da minha simpática auréola), parece uma Torre de Controlo Aéreo. As luzinhas azuis piscam como os olhos contra o vento, no topo desta uma estrela e uma luz branca que acende e apaga a compasso certo, sinalizando a sua altura. Vejo voando uma diversidade de aviões neste espaço, mas sem asas. Tem bastantes estrelas por toda a “torre” e ao olhá-las sinto-me também uma delas, sinto-me a própria Torre de Controlo, mas sem a luz branca intermitente no topo de mim para afastar aviões descontrolados, desfeitos, barulhentos…
Eu Vi Logo…

Toca à porta o Lau. Vou ao seu encontro, ainda de avental e touca na cabeça. O Elias louco a correr atrás de mim “sai cão, chato, não é para ti!”, a língua pendurada, não foi assim que o eduquei, mas cão é cão, não o posso converter a um de nós, humanos.
Não leio pensamentos, mas rostos são frases bem decifráveis. Cabeça semi inclinada para a frente, sorriso amarelo torrado, como uma torrada acabada de ser queimada e um “Benedita, temos que falar.”
Benedita: não precisas abrir as beiças, queres acabar tudo.
Lau: desculpa, mas a culpa não é tua, o problema é meu, não é teu. Não me sinto preparado para uma relação.
Benedita: errado! o problema é unicamente meu, por dar oportunidade e perder tempo com inseguros insatisfeitos como tu. Mas estou a ser alvo de alguma experiência?
Lau: desculpa…tu és impecável, bonita, boa rapariga, inteligente, mas não quero nada contigo…
Benedita: sou isso tudo e não aproveitas? Vocês homens são masoquistas ou são mesmo burros? É que já não é a primeira vez que os meus delicados ouvidos são arranhados por grãos de areia tão secos. Afinal de contas que querem vocês? mulheres cruéis, feias e burras como um cepo? Se vos aparece uma raridade como eu, oferecem-na de bandeja a um próximo “sortudo”. Evidente que o problema é meu…
O Elias rosna baixinho e foi-se deitar no tapete da cozinha.
Lau: desculpa…desculpa, tá?
Benedita: “desculpa desculpa” ao menos podias ter dado a notícia antes de começar a fazer o nosso jantar que me deu uma trabalheira inimaginável durante a tarde toda, com velas acesas e tudo…e para quê? Sai pela mesma porta por onde entráste, mas antes abre-me esta garrafa de tinto, que eu não tenho jeito para abri-las, só para bebê-las. Obrigada!
Abriu e saiu calado que nem um monge. O Elias, educado, acompanhou-o até è porta acompanhado de um rosnar indignado. Jantei com o Elias, bebi a garrafa de maduro tinto e ainda houve sobras, para aquele que um dia apreciará o meu prato.
Passeio Na Rua

O Elias passeia-me, mas ele é que faz “coisas”. Cão nojento! Snifa com gosto “coisas” de outros cães e quando se vêem em vez de se oscularem (de um só lado, porque assim é que é fino), olfactam as caudas, rosnam-se, brincam. Vá lá Elias, não tenho tempo para as tuas excêntricidades. Cheira tudo, caminha em espiral, pára de repente, agacha-se e “coisa”. Eu, como cidadã respeitável e civilizada levo sempre uma saco de plástico para retirar aquilo do chão. É por isso que estamos em crise, há cada vez menos dejectos pelo chão, logo as pessoas calcam-nos uma vez num ano, mais ou menos e já não dizem tão frequentemente “Merda!! pisei merda. É sinal de dinheiro!”
Talvez seja mais sensato deixar o saquinho de plástico em casa e fingir que aquilo que o Elias faz foi a cadela da vizinha.
Para casa Elias! Biscoito!
Elias: uuauuu, adoro biscoitos!! arf arf arf…
Dores Lombares

A sexta-feira é o dia do DL telefonar e decidir o programa para o fim-de-semana. Ao longo da semana está morto, não telefona, não aparece na Internet, a não ser como uma bala, mas para ver as notícias e a meteorologia. Cumprimenta e vai, só tão raramente como neva no Porto.
TRIM TRIM (telefone fixo)
DL: olá Bé! não vai dar para nos vermos este fim-de-semana. Estou com uma terrível dor lombar, quase nem consigo caminhar.
Benedita: não consegues andar? já foste ao médico?
DL: pareço um velho. De qualquer maneira este fim-de-semana não há nada interessante para se fazer. Nenhum concerto, exposição, feira, nem um bom filme no cinema. Vai chover também.
Benedita: precisas de programas culturais para estares comigo? Sempre existe a possibilidade de te massajar o lombo de modo a aliviar-te do sofrimento, ou podes dar-me umas aulas de arte ou outra coisa. Pago à hora.
DL: não vai dar…fica para o próximo, está bem?
Benedita: olha, não fica para este nem para os que vêm por acréscimo. Já estou inchada como um balão e com a ponta do alfinete muito perto de o fazer explodir. Tens segredos a mais. Não sei onde moras, não sei a tua data de nascimento, humilhas-me por não saber o que tu sabes “o que é aquilo? Não sabes?? Ai, Bé, não sabes nada…tss…não me surpreendes, nada aprendo contigo, etc”
DL: …ai, o departamento de reclamações está aberto até às sete…
Benedita: não me interrompas! Antes de te conhecer eu já existia e deixei de existir debaixo do teu pedantismo. Posso não saber nada, mas uma coisa eu sei: não gasto mais tinteiro contigo nas páginas da minha vida, entendeste Luís Diogo?
DL: não sou Luís Diogo, sou Diogo Luís. Queres que vá ter contigo e conversamos melhor sobre isto?
Benedita: não te dês ao sacrifício. Envia-me mas é por transferência bancária o dinheiro do bilhete do cinema que “por acaso e esquecimento”, não mo pagáste. Trata também de arranjar uma professora ou alguém a quem não tenhas que pedir, caso alguém me pergunte “o que faz profissionalmente?” e tenha que inventar algo como “sou médica, faço autópsias.” Tem vergonha Leandro!
DL: não sou Leandro, sou Diogo Luís!
Nunca mais o vi.
Vou de Férias

Vai um mês de férias para o Brasil, o Diogo Luís. Vai todos os anos, tem albergue livre. Só dispõe na deslocação e nas garrafas de maduro tinto como moeda de troca “gastei uma pipa de massa com o vinho, tss.” Um mês incontactável, sem telemóvel “não gosto de ser incomodado quando entro de férias!”
Benedita: és muito estranho. E se eu quiser saber que não caíste num poço, não foste assaltado e decapitado, que não foste sugado por uma planta carnívora, que não te afogaram, ou que tiveste uma síncope no meio de nenhures? Como vou saber de ti? Não me facultas o telefone da casa dos teus pais, porquê?
DL: Já disse.Privacidade. A casa não é minha.
Benedita: pois, mas tu telefonas para o telemóvel da minha mãe para não gastares uma pipa de massa. Para além de teres o número fixo da casa dos meus pais. Privacidade? És algum agente do FBI ou uma estrela de Hollywood??
Homem doido, Jesus! Vai para casa de amigos à beira-mar, olhem a sorte dele. Itinerário: galgar as matas à procura de igrejas, catedrais e outros, dos estilos Barroco, Românico, Português, Gótico…
DL: eu envio-te uns mails de vez em quando.
Benedita: obrigada. Se fores atacado por um lacrau mandas-me um mail a avisar que foste desta para outra?
DL: se eu não chegar na data prevista e não te der notícias vai à minha quinta e tenta saber de mim pelos meus caseiros. O telefone da casa dos meus pais NÃO dou. Ponto final.
Ponto final irá ter a última frase desta relação. Foi, enviou dois ou três e-mails. Um dia chegou, vivo e de cd na mão de música Brasileira para mim. Para mim?? Ele ofereceu-me uma coisa!
DL: ah….Bé…podes-me emprestar o cd para eu o gravar todo?
Já estava a ficar preocupada, afinal não fumou nada proibido, voltou igual à sua imagem. O cd era para mim coisa nenhuma!
Estadias contribuídas
Desenho: Filipa Barrote
Entro no reluzente cristalino automóvel do Diogo Luís. Era tanto o calor que fazia derreter qualquer coração. Não ligava o ar-condicionado. Há que poupar o que não se gasta.
DL: ó Bé,caramba, não tens notado que eu é que me tenho chegado à frente em todas as estadias em que estivemos? – expressão preocupada de quem está às portas da fome.
Benedita: bem, se não te importares e já agora peço tesouros de desculpas por não ter reparado em tal falha minha, no minímo atingi a escala seis ou sete. Não tinha reparado que te tinha “abanado” tanto. Eu dou-te a parte que te pertence, cêntimo a cêntimo no final da viagem/passeio de estudo. Fazemos as contas e dividimos no final. É assim tão complicado?
DL: achas que vou andar com dinheiro vivo comigo ou em casa? Pensei que percebias que tens que contribuir na altura, alternadamente ou a meias, mas na ocasião.
Benedita: e porque não? dá jeito andar com notas, nem que seja para teres que as doar a algum inesperado assaltante, ou se não houver caixas de Multibanco por perto, ou se o cartão falhar. Qual o drama de eu te pagar em notas?
DL: não! eu não ando com dinheiro. Para a próxima por favor pagas tu as restantes estadias. Já sabes: comigo é tudo a meias.
O homem é o quê? Alguma instituição bancária? Com este calor e com esta chamada de atenção entre a igualdade dos sexos, senti-me ainda mais a ferver, quase capaz de o fazer derreter como um rebuçado, assim lentamente. Devo ter cometido várias injustiças com esta personagem na vida passada. Digo e repito! Ele terá sido um indigente e ao final do dia acumulava dinheiro das esmolas e eu abocanhava-o, mas em troca prometia-lhe comida. Levava-o a minha casa e entregáva-lhe à língua um naco de pão seco. Terei feito atrocidades dessas? Ainda lhe dizia “afinal quem te trata como um rei, quem? Ai, tens tanta sorte comigo.”
À chegada da próxima estação dormitória, fui levantar o pouco dinheiro que já tinha. Paguei daí para a frente as restantes noites.
DL: ai Bé, não entendo. Tens algum problema com o dinheiro, és sumítica e falas sempre dele…
Agora os raios solares afunilaram todos em sua direcção. Estão a provocar naquela cabeça o efeito das pastilhas que os adolescentes engolem.
Seguimos viagem com os lábios colados (não um no outro, Deus mo livre!). Eu, ansiosa por esmagar com o dedo uma mosca, mesmo no vidro ou no tablier, que ele ainda não viu ali a esvoaçar no seu mausoléum.
Lurdes
Desenho: Filipa Barrote
SMS: que fazemos aqui, querida amiga?
Era a Lurdes. Questiono o mesmo. Respondi como um professor que sem certeza da resposta a dar a um aluno, inventa. Inventar não é pecado. Se nada fosse inventado que fariamos cá? Por isso circulamos ciclicamente nas mesmas questões. Ela devia ter questionado: quem nos inventou ou nos improvisou terá se enganado em alguma fórmula e sem o querer criou-nos? Seremos um mero erro? Porque não? Um erro que nunca regrediu e sempre se encontra em progressão. “Esse” deve estar sentindo um arranha-céus de sentimento de culpa e muito provável sejamos pedaços “dele”, todos nós e assim juntamo-nos, afastamo-nos, perdemo-nos, na impossibilidade de nos refugiarmos noutros compartimentos se não este.
Que fazes aqui Lurdes? Contribuis-me com a tua amizade, crias os teus gatos, dás amor ao teu namorado, comes, bebes, dormes, sonhas…
Mulheres Baixas?
Desenho: Filipa Barrote
DL: que pena tss, tu não poderes. conheço estalagens de luxo, mas para ti são muito dispendiosas. Já não estava habituado a ter que frequentar sítios baratos…ai…sempre tive namoradas independentes e com algumas posses. Hoje por exemplo estava com vontade de ir a um certo restaurante, mas…tu não podes.
Esta alforreca devia de se drogar de vez em quando só para parecer normal, um bocado normal.
Benedita: olha lá DL, então que fazes tu comigo? Arregaça os punhos e vai à luta! Arranja uma advogada, juíza, médica, bióloga, professora…faz-te à vida, pois não tarda eu arregaço as baínhas e vou pescar um peixe saboroso sem espinhas a atravessarem-me na garganta.
DL:…tss…pois…mas tenho uma certa dificuldade em encontrar alguém com mais de 1,70 e tu sabes que o-d-e-i-o mulheres baixas.
E tanto peixe no mar, tinha-me que calhar este peixe-balão.
Galga por aí!

Que cheiro a perfume! Bolas, agora o raio do animal deu-lhe para se perfumar? Aqui há gato, digo, aqui há cadela. Tomou banho. As toalhas entornadas até dentro da bacia das mãos. É, o Elias nunca toma banho. Passa por mim nem me olha. Água em pêlo de cão e perfume combina tanto como um peixe e um gambá. Passa de novo por mim, de focinho aos céus.
Benedita: ouve lá, onde vais?
Elias: vou ter com a minha namorada, porquê não posso?
Benedita: pois…mais uma rafeirita que não vai saber onde deixar as crias…
Elias: rafeirita?? Olha quem fala…trazes para cá cada um que nem num dos muitos caixotes de lixo que esmifro encontraria. É uma Galga Afegâ, fica sabendo.
Benedita: ahahahha, essa é a raça mais estúpida que existe! Não são lá grandes pensadores, pensei que tivesses alguma coisa dentro dessa cabeça…ao menos tu!
Elias: por isso mesmo, assim completámo-nos. já ouviste falar em equilíbrio??
Bem…já, menos quando bebo alguns líquidos a mais. O cão não deixa de ter alguma razão. Certas teorias que me faziam confusão começam agora a fazer algum sentido único. Equilíbrio…complemento…
Cada vez mais adquiro sapiência com este rafeiro e nem é Doutor ou Engenheiro.
Silêncio cão!
O meu cão, o Elias hoje fartou-se de conversar. Falou de tudo. Até do tempo e da situação do globo. Tentei que fosse comprar tabaco ou chiclets, só para não o ouvir mais.
Benedita: ó Elias, deixas-me estar sossegada que estou à espera que venha a Tecas trazer-me um livro para eu ler em silêncio…
Elias: bolas! Às vezes andas por aí a deixar água em papéis e se tens uma companhia para conversar queres que me vicie em cigarros…
Mas o cão é estúpido ou o quê? Não me apetece conversar, é assim tão difícil entender? Calou-se, roeu um dos bonecos, o meu preferido ainda por cima e foi para a janela miar.
Benedita: pronto cão, pega lá papéis e enche-os com água. Não vás comprar chiclets…
Malparado?
Porque razão os jornalistas não aprendem a escrever? Acho muito bem que se comece a aprender a língua Inglesa na idade em que se torce o pepino, pois tem-se tornado esse o nosso idioma. Mas…quem são estes para inventar palavras? Tudo começou com o “malparado”. malparado é alguma palavra? Que tomam eles pela manhã? Cogumelos esquisitos? então vejamos: malentendido; maleducado;malhumorado; maltratado;malamado;malencarado;malescrito;malformado, etc. São os estilistas das palavras, gostam de criar…
Nãomeadmiravanadaquequalquerdiaosnossosjornaissejamtodosfal
adoseescritosemestrangeiromaspodeserquetambémaindaconsigam
osdevezemquandoouvirasultimaspalavrasproferidaspeloslocutores
dostelejornais.
É melhor pôr-me a andar que tenho o carro malestacionado e não vá surgir um agente da autoridade maldisposto.
Arte
Quinta de Chão Verde
Diogo Luís apresentava um discurso repetitivo, quase em monólogo em todos os assuntos. Nos nossos muitos passeios “visita de estudo”, palrava com tudo e todos. A sua narração já era para mim como ouvir uma oração ou o previsível toque do micro-ondas. Tinha tudo decorado na cabeça. Tudo! só não sei se decorava também a casa dos pais, onde fazia questão de viver para não pagar renda.
Numa dessas viagens ficámos hospedados a meias (até as camas eram duas), calhou-lhe a pouca sorte de o proprietário da pousada ser artista e saber mais do que o “Conde”. Nem iniciou conversa com o homem.
Benedita: então DL, tens aqui um excelente interlocutor, um conhecedor e apreciador de arte. devias te sentir nas tuas sete quintas.
DL: ….é….o tipo parece uma cassete. Tem a mania que sabe. Viste a escultura dele na entrada? Horrível! Odeio pedantes destes…olha só, ele o que quer é público tss tss.
E ficou calado como um papagaio mudo. Amuou até. a boca entortou e tudo!
O pseudo-intelectual não suporta o peso de um intelectual, de um culto fléxivel, talentoso até. Enciclopédias com duas pernas caminhantes são humilhantes e invejosos dos que possuem criatividade.
A escultura na entrada da pousada era uma maravilha! O Diogo Luís continuou pousado em silêncio confrontado com o peso da verdadeira sabedoria.
Nessa estadia aprendi sobre arte de uma forma divertida e absorvente. sem ter que ouvir as vírgulas, os pontos-finais, as reticências de algo decorado de uma edição qualquer publicada e assimilada, nem “não sabes isto??…ai…não sabes nada…”
Sentou-se ao espelho da piscina, sem abrir lábios e lia vários jornais e revistas àcerca de Economia, Finanças, Arquitectura…
Burro!
O Vento Sopra?
O vento sopra. O vento sopra? Sopra quem tem boca para soprar um instrumento, soprar para o rosto de alguém, soprar para arrefecer o chá, soprar a mosca que aborrece o braço, soprar o cabelo para chamar a atenção, soprar as velas de aniversário e a dos veleiros, soprar uma ferida ou queimadura na pele, soprar aos ouvidos, soprar ao coração…O vento sopra?? mas o vento não tem boca.
Desenho: Filipa Barrote
O Hiper Activo

O petiz guinchava, berrava, fazia birra. Pontapeou a minha tíbia. A mãe aplaudia a cada dote do rebento. Tinha uns oito anos “QUERO UM GELADO!!”. Não Ruben, repreendia a mulher “Já comeste três chocolates e cinco caramelos.” Pontapeou a minha outra tíbia, o puto. Para não me sujeitar a atravessar uns meses na companhia de traficantes de droga, homicídas de maridos, prostitutas, entre outras, inclinei a cabeça ao ouvido do Ruben “ouve, ó miúdo, da próxima vez que berrares e bateres com essas patas nas minhas pernas, eu mando fechar todas as fábricas de chocolates, sumos, pizas e de gelados, ok?”. A mãe apercebeu-se da aproximação “ó menina, não ligue, ele é hiper activo e não lhe dê nada se lhe pedir alguma coisa, é muito pedinchão, o meu Ruben…”. Açoites e beliscões seriam as minhas únicas ofertas!
Ruben: MÃE! ESTA MENINA DISSE QUE MANDAVA FECHAR AS FÁBRICAS DE CHOCOLATE E DE DOCES….BUÁÁÁ!!
Acobardei-me, fingi atender o telemóvel e afastei-me desde a primeira velocidade à quinta.
Mãe: ah sim?? que mal educada! Não ligues filho, há gente muito maldosa e que come criancinhas ao pequeno-almoço.
Ruben: QUERO UM GELADO! QUERO, QUERO E QUERO! – cruzando os braços e pontapeando as suas próprias tíbias.
Mãe: pronto querido, vá lá. Escolhe o sabor.
O “hiper activo” vai esvaziar muito hipermercado e muita paciência.
A Lurdes Enlouqueceu
Desenho: Filipa Barrote
A passo de passeio num jardim perto de árvores, na companhia da minha amiga Lurdes, ela dispara um “Vou-me casar.”
Benedita: vais o quê??? Com o Lotinhas? O anormal que nem te diz a idade que tem com medo que vás cirurgicamente ler o horóscopo dele? Deves de estar bem apanhada!
Lurdes: Que se lixe! Também não quero saber muito sobre ele. Não sei onde mora, não sei nada e depois? Por isso me vou casar com ele…saber o quê e para quê?
Benedita:…mas…o débil no início dizia-te que se chamava Ricardo Paulo, passados uns meses é que te disse que afinal se chama Alexandre Rogério…se é que se chama mesmo! Lotinhas….
Lurdes: sim – conformada voz, conformada expressão facial, conformada atitude – não me interessa nada… – estou feliz assim.
Talvez a Lurdes esteja a a ter um ataque de sensatez. Sinto uma séria vontade de também me candidatar a este estado de loucura, o de “deixar andar…”
Acho que Lurdes deve ser muito feliz. Uma folha seca pousou-me mesmo no pé.
Vaca Boi

“UUUAAAÚUUU Bé!! Esse chapéu fica-te um colosso. Compra, não sejas naba! UAU, ficas o máximo!” O DL foi tão efusivo que quase me senti a Kate Moss com uns kgs a mais e uns pós a menos. “Compra, vá lá!” Foi numa Feira de Artesanato Minhota, à qual o DL não faltava, como um aluno assíduo, pontual e atento, dos que se sentam tão perto do professor que lhes conseguem ver os pêlos interiores do nariz.
DL: Compra, não sejas tacanha!
Benedita: é giro, mas…é um chapéu.
Para além de não precisar de um chapéu, já me escassavam e cada vez mais as notas e as moedas à custa de tanto almoço/jantar/gasolina/portagem/estadia/concerto/…
Benedita: é melhor não. É realmente um estoiro e ficava a condizer com o meu cinto, mas fica-me caro, ainda são 20€!! E é apenas um chapéu de pele de vaca, por essa quantia preferia comê-la.
DL: És mesmo sovina – boca a condescender – vá lá, compra!
Benedita: ok, já que insistes tanto…mas não tenho dinheiro que chegue aqui.
DL: Ora, eu empresto, já sabes que estou sempre para o que der e vier. Pega lá!
Ao sair do recinto e ser admirada como uma estátua, dirigi-me à primeira Caixa de Multibanco. Retornei o que devia. Ele estendeu a mão rota, parecia mais um pé descosido pelos sapatos, aqueles dedos a tresandar dinheiro.
Nunca usei o chapéu, anda lá roído como o pernil de uma vaca. Elias, seu destruidor!
Gargalo

“Sabes o que é aquilo, Bé?” e apontou para uma esquina superior de uma Igreja. Sei lá, respondo eu, ansiosa por correr e deslizar-me pelas montanhas ali perto, verdes pontilhadas de amarelo daninho. “Não sabes?, Ai não acredito , uma pessoa que se diz interessada em arte…Bé, tu não sabes nada, surpreende-me, caramba!” Corri ao declive da montanha e aprendi o nome do cheiro do feno, da erva e das flores amarelas teimosas em embelezar a paisagem. Que raio de obsessão pela arte feita. Os nossos passeios são autênticas visitas de estudo e no fim tenho que apresentar o relatório, ou em último caso uma tese! O Diogo Luís era tão espontâneo como uma máquina de café. Eu sei lá que nome deram àquela coisa na ponta da esquina do edifício!! Isto significa que não aprecio arte como aprecio um bom perfume ou um belo quadro? E sei lá eu de que é feito o perfume. “não sabes…ahahahah….não sabes…”chiça, nem o meu sobrinho de cinco anos tem reacções dessas com algum colega que não saiba quanto é 1+1. “ó Bé, chama-se Gárgula…”
Olha, farta de ti pelo gargalo estou eu!!
Fumo ou Vapor?
“O seu fumo incomoda-me!”. Olho para a voz de cabelo armado até ao candelabro, uns olhos parecidos com aqueles batráqueos que se costuma engolir vivos. “Como disse, minha senhora?”. Repetiu “O seu fumo incomoda-me, não entendeu?” A senhora ou é estrábica ou tem estrabismo intelectual. Permaneci indiferente. Farta de aturar loucos, bolas! Não me deixei consumir enquanto consumia a minha quente sopa de legumes e feijões. “Menina! o seu fumo está a incomodar a estrutura do meu penteado, quer fazer o favor de mudar de lugar?” Fumo? Vapor, minha senhora.
Analisando ao detalhe a velha senhora, os olhos de batráqueo estavam embaciados como um pára-brisas em tempo húmido.
Benedita: Desculpa, minha senhora, eu não me mudo daqui, a única solução é que me ajude a comer a sopa, para que o vapor se dissipe.
Senhora: Se a menina não se importar…agradecia até.
Pedi um prato e dividi a sopa. O vapor foi de boleia com a colher provocando lágrimas de tinta negra que contornavam o olhar, deslizando como lágrimas gota a gota na sopa.
Depois evaporou-se…
Ofereço-te Gambas

Diogo Luís: Quero uma salada, mas os tomates têm que ser vermelhos, vermelhos, muito maduros! Senão nem vale a pena trazer.
Era sempre a mesma conversa. Eu já me começava a encher daquele “Conde”como uma barragem com as comportas fechadas . Travessa na mesa ornamentada por gambas e algumas ameijoas.
DL: Pega lá umas gambinhas, olha como te trato como uma donzela…tens tanta sorte comigo.
Ele oferecia-me algumas gambas, ou seja, não eram divididas a meias. Eu venci nessa disputa:
Benedita: Se me estás a oferecer a tua parte gamba como se fosse um colar de ouro é porque não as deves apreciar – sorriso mais ou menos irónico – pois!
Ficou ofendido como quem é apanhado a desfrutar o que se desdenha. Comeu-as todas! para meu castigo.
DL: Olha-me só aqueles tronquinhos…ai…que gente tão horrorosa.
Pergunto-me que faço com este snob pseudo intelectual. É a paga, é karma! Terei nesse vivência extra-dimensional remota envenenado o homem, muito lentamente com tomates? Verdes , não maduros. Não sei…por algum motivo partilho parte da película do filme da vida com ele.
Café e a “dolorosa”. Dolorosa era o que ele chamava à conta. Dolorosa seria se ele pagasse pelo menos a minha dose de gambas que rancorosamente estripou. Começava a ficar preocupada com a minha vida desafogada com este “senhor”. O meu orçamento esvaziava como uma bexiga e já não havia muita mais água para tornar a forrá-la. Sempre a almoçar e jantar fora ao fim-de-semana?? E, segundo ele, é Director Comercial de enlatados de atum e sardinhas, vivia com os pais aos 48 anos, sem descendência e nunca usou anilha no anelar. Ao menos uma lata de atum, conta a intenção! Já muita sorte tinha com as gambas (excepto hoje). “Ai que sorte tu tens em teres arranjado um namorado como eu…quem dera a muitas, sabias? Tenho a certeza que nunca foste tão mimada, viajas, levo-te a concertos, cultivo-te…ai Bé…”
E ficava com aquele sorriso meio inerte e ao mesmo tempo retirava um pedaço de gamba com um colarinho. Porco! Tantas manias e olhem!
Benedita: Não tens lenços? Pega lá um. São 0,05 €.
DL: Ai Bé, és tão forreta…Deus mo livre!
Carnaval Assimétrico

No Carnaval fantasio-me de senhora das limpezas. Não tinha ideias originais como vestir-me de fada, freira, bomboca, bruxa, pijama, Indiana, palhaço, anos sessenta, etc.
A bata da cozinha ainda a cheirar a fritos e com nódoas, uma saia quadrada até à rótula, collants brancos e umas peúgas verdes abaixo das rótulas.. Nos pés, as chinelas felpudas cor-de-rosa roídas pelo Elias e corroídas pelo óleo ainda em fúria. Uma caixa de plástico de detergente servia de transporte para as chaves, o porta-moedas, perfume, espelho, clips, caneta, batom, lenços, canivete e uma escova. Luvas de plástico e no cabelo um lenço florido colorido e numa das mãos um espanador do pó. Nesse Carnaval conheci o Ronaldo. Era amigo de um amigo da minha amiga. Trazia um fato e gravata quadriculados. Parecia uma mistura de palhaço com um projecto urbanístico. O sapatos deviam ser do pai do bisavô. No rosto trazia a máscara do “Fantasma da Ópera! “Era músico, por sinal, tocava harpa ou uma coisa assim. Só lhe via metade do rosto. Conversámos, bebemos, dançámos e de vez em quando passava com o espanador pelos quadrados do fato, mas ficavam intactas aquelas cores sem dizer nada umas às outras. E as calças? Estava mesmo ridículo, teve gosto!
Ronaldo: Quem te deu a ideia de te mascarares à sopeira? estás mesmo um prato!
Benedita: Não preciso que me dêm ideias. Tenho as minhas próprias…
Pela noite adentro (ou afora) fomos conversando dentro do previsível. A noite amanheceu, descalço as luvas de plástico e bloqueio aqueles primeiros incomodativos raios do dia.
Ronaldo: amanhã posso ir buscar-te ao emprego?
Benedita:…hmm…está bem, se quiseres. Saio às 17h.
Parece que este gostou de mim, mesmo vestida à senhora de trabalhos domésticos aborrecidos como os discursos do Rebelo de Sousa.
No dia marcado e com dez minutos de antecedência vejo o Ronaldo a aproximar-se da loja. “Poças! será que o rapaz nem foi a casa? perdeu o comboio? Está com a mesma indumentária…mas que raio…até as polainas estão onde estavam ontem.” Apenas retirou a máscara. Conheci a outra metade do rosto. Que dez minutos tresloucados, não passam e enquanto dobro roupa e atendo clientes só vejo quadrados e mais quadrados, e polainas. Rosto simétrico. Não aprecio coisas simétricas, faz com que uma metade seja idêntica à outra. Não acredito em gêmeos, nem em almas (gêmeas). É monótono, desinteressante sem nada diferente a explorar. Não vejo beleza na simetria, só na distorção.
Ronaldo: Olá, como vês sempre vim – e sorriu.
Benedita: …pois…não foste a casa? Ainda estás mascarado…
Ronaldo: eu visto-me assim, só me mascarei com a máscara.
Benedita: ah…olha Ronaldo, desculpa, mas ontem não te disse…sabes como é, eu tenho namorado há algumas semanas, toca clarinete aqui na Junta da Freguesia…esqueci-me de te contar no calor do Carnaval. E também agora não dava para tomar um café, tenho que ir desparasitar o meu cão…
Ronaldo: ok, prontos! Fica bem então…
O rosto dele ficou aos quadrados torcidos, coitado, ficou desgostoso.
Fui para casa. Vesti a bata da cozinha, as luvas de plástico, as chinelas, o lenço no cabelo “Querido Elias!!” e salta de alegria, lambe o ar, levanta voo com a rotação da cauda, parte-me mais um biblô, lambe o meu rosto assimétrico e pede biscoitos, daqueles em forma de gato. Cão interesseiro!
-
Recente
-
Links
-
Arquivos
- Dezembro 2009 (2)
- Novembro 2009 (25)
- Outubro 2009 (22)
- Outubro 2008 (1)
- Setembro 2008 (2)
- Agosto 2008 (1)
- Maio 2008 (5)
- Novembro 2007 (1)
- Setembro 2007 (1)
- Julho 2007 (1)
- Junho 2007 (4)
- Maio 2007 (2)
-
Categorias
-
RSS
RSS das Entradas
RSS dos Comentários
