Coisas escritas

reflexões da Benedita Maldita

Já não sei mais como sofrer por ti

Publicado por Benedita Maldita em Outubro 1, 2008

Comprei uma cerimónia daquelas que não nos faz corrigir à pressa as palavras que detestamos bater aos outros. Não sei, não me apetece…não me apetece sofrer por ti, não me apetece e pronto! Não o sei sequer beber ou o destilar dentro da minha tão somente e sólida consciência de todas as coisas e…e não, não me apetece sofrer pelo meu sofrimento por ti que o sugas fugaz e voraz e despejas nas estrelas reflectidas no céu muito teu, por ti criado na áurea invejável ainda que a veja no tapete pisado pelos meus passos tão cegos, tão surdos do teu prazer que roubas sem pressa e sem medo de me deixar rastro, porque de mim não esperas o tiro fora da culatra e depois, depois? Respiras sem sair de cima de mim…Expiras-me!!
Mas se saíres, sai de vez para que eu possa finalmente transpirar sem me ofegar no cheiro que me queres render ao teu.

Sai porque já não sei mais como sofrer por ti!

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Daltónico

Publicado por Benedita Maldita em Setembro 15, 2008

Despe a cor que te tens por ter, daltónico destas cores, não surpreende que não as queiras ver como as são para as nossas cores, tão coloridas e cinzentas às vezes, como a cor do olhos que vês a cor que não é insípida…tem sabor a cor que não saboreias…

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O meu Fim

Publicado por Benedita Maldita em Setembro 15, 2008

Houve um dia em que nasci um dia e morri outros quantos e fui te encontrar no meio do meu caminho a trejeito, perfeito, e tu desviaste, arruinaste um monte de terra molhada e fizeste mudar o rumo que não te fazia jus até me arruinares um sentido só teu pelo fim que agoira e pelo inicio que te tenho no teu fim.

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Não me mires!

Publicado por Benedita Maldita em Setembro 15, 2008

Foste tu com o teu olho destravado atrás de mim, e eu a fugir e tu com o teu olho garrido sufocaste-me uma narina, tu com o teu olho luminoso encandeias a luz que te quero dar, ofuscas-me no intento de me ver o que não me queres ver agora.

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Compota

Publicado por Benedita Maldita em Setembro 15, 2008

Queixei-me eu por não ter um pão para espalhar na compota, e a compota a chorar o pão, o pão que não comes, porque não queres, porque desististe, porque não te comportas na compota, e o teu pão seca para a compota não comportar…

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Meu amor

Publicado por Benedita Maldita em Setembro 15, 2008

Vai meu querido, meu amor, meu não amor teu, vai e vai o que te fico aqui para tu levares quando precisares de ti, e vai, meu amor, o meu amor não conheces agora e leva-o, leva-o para que um dia o possa partilhar contigo, num desses dias, daqueles a que se diz a nossa hora, o nosso dia, o que tem que ser, o que não tinha que ser…

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Pequeno-almoço

Publicado por Benedita Maldita em Agosto 14, 2008

Ainda de romela pendurada numa extremidade de um olho semi aberto pela madrugada que fora longa, a voz do outro lado do olho pergunta “que horas são?” olhei o pulso quase por instinto e o sol respondeu por mim. O sol não, a sua inclinação. Conheci-o na noite anterior. Algumas noites anteriores conheci uma foto, um retrato, um testemunho, um sorriso parado pela constante órbita terrestre. Encantou-me o sorriso! sei lá! Não estaria propriamente preparada para o salto ao abismo, mas sempre se arranja um bom pára quedas. Nem preparada nem à procura…mas…há sorrisos…perguntei à foto, depois de a adicionar à lista em ordem alfabética ascendente, se aceitaria um jantar. A foto sorridente aceitou. Ora, tenho dois filhos e um ex marido compreensivo, logo pedi que me desse um “break” e me deixasse perfumar o cachaço uma vez mais e sentir aquela ansiedade bruta de um primeiro encontro. Ele ficou com os meus filhos, permitindo-me aquele remexer de ao vivo apreciar uma voz e um cheiro novos! Não passara um mês em que a presença física do sexo oposto me espaçava o vazio. Não. Eu que nem estava à procura e sem pressa…pois! A condição humana desrespeita as palavras proferidas, que se lixe!
Pontual como os ponteiros do meu relógio, o restaurante esperava um acento à minha medida. Ele chegou dez minutos depois. O sorriso não era mentira, sentou-se e os olhos sorriram sem medida. Conversa, garfada, golada, silêncios, risos, distracções, impaciência, a mistela de ingredientes de encontros cegos. Cega o fiz seguir a minha casa, disse-lhe a vida pelas fotos espalhadas pela sala (até na porta do wc). A conversa previsível, a inteligência comprada e adquirida compraram-me a ingenuidade. Logo aos primeiros sinais que o globo terrestre se faz iluminar, sem que a crise petrolífera o impeça de seguir a sua viagem cósmica, a foto sorridente fala “ai, a minha namorada está à minha espera…adorei este pequeno-almoço”.
Também eu…adoraria repetir, mas para uma próxima não peça um “break” à sua namorada e traga-a também.

Para quem não procura algo, sempre alcança alguma coisa.

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Espelhos

Publicado por Benedita Maldita em Maio 29, 2008

O casal não conversa. De frente um ao outro flagelam silêncios de presença. Palavras? Para quê? São diferentes um do outro, sim…mas haviam de ser iguais como reflexos um do outro? Para quê? O silêncio respeita a essência do espelho que não se quer quebrado.

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Carraça

Publicado por Benedita Maldita em Maio 28, 2008

A carraça não escolhe o pêlo. As carraças parecem borboletas contentes esvoaçando de ar em ar e um dia surge aquele pelo fofo onde o descanso parece um pecado necessário. As borboletas são bonitas, sim. As carraças? Nunca lhes vi a cara…só aquela carapaça de caracol sem corninhos ao sol e as patinhas, pequenos ferrões ali agarrados ao cepo das criaturas, a sugar-lhes as correntes, Deus meu!! E retirá-las? Elas escavacam esconderijos, mesmo os pêlos mais rentes não oferecem trincheiras às malvadas voadoras sem belas asas, como as borboletas coladas virtuosamente em painéis de narcisistas sem pêlo no focinho.

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Despedida

Publicado por Benedita Maldita em Maio 28, 2008

A minha prima foi despedida. Ergueu-se do sono com uma perna adormecida. A perna ficou debaixo do monte de tecido, a tela de grandes e pequenas metragens amadoras. Deixou-a lá simplesmente. A água correu o corpo, o leite e cevada a laringe. A perna continuou lá, em silêncio, o silêncio da preguiça. Foi despedida a minha prima pela perna que caminhava mais rápido que a outra.

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Cão do Talhante

Publicado por Benedita Maldita em Maio 28, 2008

O cão do talhante, o Simão, tem manias…andava eu por aqueles arredores e o sujeito vem enfarinhar os sentidos no meu saco diário. Que quer ele? Não tem ossos que cheguem? Assim continuei rumo sem que o Simão não babasse um fio de serapilheira a cada coordenada. Que queres ó cão? Pega lá um biscoito! O biscoito saltitou duas ou três vezes no alcatrão até a pata endurecida o fazer calar. Deixou-o morto. E como um gato que brinca com o pássaro sem vida, o Simão lambeu a custo o biscoito, encostou o nariz besuntado e ignorou a preza. Pobre exigente!! Logo os melhores biscoitos, os preferidos do meu filho Rogério. Ainda lhe gritei uns mal agradecidos, inúteis, parasitas…mas em vão, ainda me dispara pulgas armadilhadas com baba. Continuei obrigações de serapilheira carregada pela pobreza de um osso sem carne.

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Lucinda Macia

Publicado por Benedita Maldita em Maio 28, 2008

Lucinda carregava uma chávena de porcelana na bandeja da mão, da mão amaciada pela água das lágrimas esmorecidas pelo recorte do canto da boca. Ele moldava a poltrona. Os braços pousados em inertes movimentos, simulavam um mudo gesto, o gesto que segura a chávena a caminho pela Lucinda inerte pelos ataques dele, sentado na poltrona que ela moldou com as mãos macias pelas lágrimas.

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Escrita Criativa

Publicado por Benedita Maldita em Fevereiro 28, 2008

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O Sábio

Publicado por Benedita Maldita em Novembro 25, 2007

O louco sábio pergunta ao sóbrio subordinado que contas faz ele de cabeça. Responde o subordinado que contas faz aos anos que respira e as vezes que inspira. O sábio calcula na máquina, o subordinado calcula no tempo.

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O teu chão

Publicado por Benedita Maldita em Setembro 22, 2007

Subi ao eixo do meu chão e vi-te lá, de mãos inchadas, implorantes das minhas sem tacto, sem linhas nelas desenhadas alinhadas com as tuas. Não te quero nas linhas da minha mão, porque insistes que elas existam nas tuas? Apaga-as, vai ao curandeiro, ao corrector da vida, vai a Deus e queixa-te das linhas tortas que Ele quis escrever direito.

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Nevoeiro

Publicado por Benedita Maldita em Julho 26, 2007

stephen kasner print clouds Stephen Kasner

O nevoeiro toldou as minhas mãos. Parece o risco de água que escorre dos teus olhos secos de raiz, que semente não brotou. O meu nevoeiro ofereço aos teus olhos, a minha neblina aos teus pés, raiz do chão que amassas sem dó um ventre sem luz. Empresta-me as gotículas que arrancas do meu solo, para que um dia os meus dedos se transformem em pincéis para o teu rosto tornear cada molécula de mim. O teu nevoeiro toldou o meu sol. Parece a serpente dos caminhos a direito ao destino do rio que tu és porque és mar.

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Anjos vs Anjos

Publicado por Benedita Maldita em Junho 16, 2007

O anjo da guarda despedido em contra mão de encontro ao meu anjo despedido:


- Pá! Que fazes aqui?
- O mesmo que tu, possivelmente…que te fizeram às asas?
- Asas? Eu não tenho asas, agora tenho fibras sintéticas prolongadas a partir das omoplatas.
- Foste despedido…tal como eu, não enganas os teus semelhantes nem que não tenhas asas, todos as vemos.
- Asas?? Não gosto de bebidas fictícias, dessas para canalha das raves e festas transe…
- Ó colega dos céus. Foste despedido? Quem foi a alma insatisfeita?
- São várias já. Elas bem me querem, mas eu não resisto a uma noite em discotecas e bares e depois…depois abandono-as, essas almas que delicadamente contam comigo e depois…depois…elas que se desenrasquem!
- Agora andamos aqui penados e elas, essas almas que nos despedem sem direitos sentam-se ao lado de Deus…nem são anjos caídos, como eu que me atirei de um 26º andar e aqui ando a responder a anúncios…
- Todos precisam de anjos e ninguém nos dá valor, despedem-nos como se fossemos ratos e ratazanas vadios com pão sem pedir.
- Só se fores tu!! Eu cá sou requisitado por quem não me quer ver nem vivo. Cheiram-me como a uma flor sem odor e sem pétalas. As pétalas que desenham as asas que me vão sendo retiradas, são o pólen das abelhas sem ferrão.
- Não me chateies anjo estúpido!! Vai lá pedir emprego a uma alminha irrequieta! Tens é paleio!
- Paleio a meio de um discurso é tão verdade como as minhas asas serem depenadas sem dor sentir.
- Vai gozar outro. O meu último cliente, um senhor bonito e feliz despediu-me só porque o telemóvel não funcionou quando pretendia pedir uma pizza ao filho que não é dele.
- Eu fui despedido, porque pediram lasanha e não tinha queijo suficiente para derreter as veias dos filhos mimados e desprendidos e despedem-nos em burocracias assinadas por tudo ter

- Anjo da guarda, não há quem te guarde?

Sim, tu!!

splatcat0605 Um anjo a tentar esmagar outro.

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Ninho

Publicado por Benedita Maldita em Junho 9, 2007

O meu gato sonha contigo, cão. E tu nem o mereces, porque ainda te enrolas nas mantas nojentas dos meus canários falecidos, e depois herdaram as mantas os gatos e finalmente o cão que tu és e não desfazes o ramo que nasceu na minha árvore, já não tenho mais raízes para desposares o que não é teu nem meu…sai do ninho do gato filho de vários canários que nasceram fora do meu ventre e não apareças a não ser para pedires o luar que vi nos olhos que não te vêem…

FaceInMoonShadow L Amiga sem rosto

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Correntes

Publicado por Benedita Maldita em Junho 9, 2007

ALMA-TADEMA Woman and Flowers 1868 source sandstead d2h 01 Alma Tadema

Atravessei a ria sem olhar a corrente, fui atropelada pelos remoinhos e pelos nadadores, um braço oferece um estalo inocente e um estalo agressivo acertei a face do nadador ” que foi, Carago??” não foi nada, digo eu, a nadar com um só braço e perna e ele ainda “então não vês o sinal, caralh…?” eu só vi verde, a cor que a ria sorria…e ele ainda mais “vai lá contra a tua mãe, caralh….fod…etc” , eu não tenho mãe nem padrasto, que quer ele afinal?? Eu só vejo verde, a cor que me faz avançar e contrariar correntes…

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Mapa cor-de-rosa

Publicado por Benedita Maldita em Junho 9, 2007

Mapa cor-de-rosa, plano cor-de-rosa, cores primárias em esferas quadradas, verdes nascidos de azuis e amarelos, de magentas e amarelos escuros de ovos mal cimentados, cores secundárias, primárias de outras, como um universo estúpido que se julga uma só cor e desafia as forças mescladas e estas têm mais brilho que todo o sol explodido.
Mapas da cor das rosas, amarelas, brancas, que nascem no pára-brisas e morrem no asfalto, como insectos na sopa dos pobres.

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