Trovoada – parte II
TONHAS
A minha mãe – que na verdade não é minha – mas o é porque seus dentes evoluíram e mataram a transição daquela vida antecedente a esta. A minha mãe afogou o oxigénio, talvez porque meu pai não me desejava, não sei…um picheleiro talvez tenha mais preocupações alheias que não o permitam assistir ao desenvolvimento de outro ser similar.
O que ele não sabia nem adivinhava é que agora sou Doutor…sim, Doutor! Telefonei-lhe a dizer o que sou agora e ele disse: “Ó filho, que bom! É que não me tenho sentido bem ultimamente….Tonhas….digo….Doutor”. Quis saber da minha mãe. Qual delas?
Disse-me ainda que se sentia extremamente sofrido dos cotovelos e das anilhas. Bem, a minha especialidade não é bem essa, é mais aquela especialidade de colocar nos cheques “Dr”. Não entendo nada de medicina, confesso! Tenho orgulho e gosto quando num restaurante alguém é atingido por uma síncope e alguém pergunta: “Há aqui algum médico?”, e eu: “Sim, sou eu”. E depois? E depois a vítima morre ali mesmo. Se o meu pai sabe disto até me mata afogado, mas que quer ele?? Sou também eu um picheleiro das vias humanas. Afogar é genético… e que me afogue, há sempre doutores por perto. Uma vez tentei fazê-lo, quando ainda estudava, na banheira da casa de uma colega que estudava engenharia hidráulica. Enchi a banheira de gin e depois enchi a cama dos pais dela de vómito. Seguidamente enfiei as bentas na tona da água da banheira e enganei o oxigénio, mas ele foi mais esperto que eu. Chamou a doutora engenheira a tempo de ouvir alguns gritos surdos de hidrogénio. Arrebataram-se-me ainda alguns lábios nos meus, mas o que me fez vir à tona da água do gin que enchia a banheira foi a imagem do meu pai, aquele honesto e vincado trabalhador, um picheleiro de honra, um homem de tal maneira ambicioso que se esquece até de beber café pela manhã.
Conheci a minha mais que tudo nessa noite…foi ela que pôs a boca na minha, e exalou mais oxigénio que toda a minha vida necessitaria para toda a vida. É linda!! Tem dois olhos, um nariz, uma boca, dois braços e pernas…enfim, linda mesmo. Depois disso é que pensei em seguir afincadamente o curso de doutor. A minha mãe ainda não sabe, estou a tentar ganhar coragem para lhe contar. Ela pensa que sou ajudante de padeiro e está orgulhosa. Orgulha-se aos vizinhos que o pão nasce todos os dias quentinho à custa do filho dela. Mentira!
Tonhas, o burro inteligente.
Trovoada
Tinha escapado da trovoada. Soube nos noticiários (ou uma espécie de), que morreram várias pessoas atingidas pelo mesmo raio que não me atingiu.
O Tonas, que está sempre ao meu lado também não foi aniquilado pela fúria de desentendimentos atmosféricos. Não é meu filho o Tonas, mas é como se o fosse. Sua mãe morrera afogada há uns anos vindouros e eu o vi à tona de uma margem de água, sozinho, ainda trazia o cordão umbilical àquilo que o expeliu. Na época eu ainda tinha todos os dentes afiados, facilitando o desprendimento à coisa que o deixara em órbita. Essa órbita maternal…
O meu Tonas é muito inteligente, teve nota 19,99 a todas as disciplinas e eu amo-o por isso, caso contrário já teria deixado o Tonas na rua dos amargurados há muitos, muitos e muitos anos escolares.
Tenho ainda algumas queimaduras do raio que não me atingiu, graças à inteligência do Tonas, que não sabe escrever, mas tem curso superior e a desculpa de pai não ter e mãe afogada. Tem um raio de nascença no couro cabeludo que previne forças magnéticas do foro natural.
Certo dia estava eu nas compras habituais, aquelas que o Tonas necessita, tais como: batatas fritas, hambúrgueres, gelados, rebuçados, caramelos, refrigerantes e outras coisas mais, quando me apercebo de dois ou três vultos encapuçados de coelhos, posicionados em lista de hipermercado e revestidos com uma ou duas armas ameaçadoras para qualquer respiração. O meu Tonas logo me defendeu e a todos os consumidores apenas com a força de um olhar ou da antena que tem nascida de uma parte qualquer amena do couro cabeludo.
O meu Tonas recebeu o prémio da paz aqui da nossa terrinha sossegada e aconchegada.
Tem sido o meu mais que orgulho. O pai dele ainda não sabe que ele existe, mas sei através do meu vizinho que reclama o que está mal e o que está bem, que o pai do Toninhos está na Venezuela e já esteve para ser morto quatro vezes sem falta, mas é duro de roer como os idosos maus. De qualquer das maneiras diz que um dia irá vir a estas terras visitar o filho premiado, que de outro saber não viria.
É picheleiro o pai do Tonas. Quando engravidou a sua mãe (do Tonas), já ele estaria longe, mesmo antes de ter conhecimento do acto consequente. Ela telefonou-lhe no preciso momento do afogamento e ele não ouviu, embora fosse entendido como um excelente ouvinte…

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