Anjos vs Anjos
O anjo da guarda despedido em contra mão de encontro ao meu anjo despedido:
- Pá! Que fazes aqui?
- O mesmo que tu, possivelmente…que te fizeram às asas?
- Asas? Eu não tenho asas, agora tenho fibras sintéticas prolongadas a partir das omoplatas.
- Foste despedido…tal como eu, não enganas os teus semelhantes nem que não tenhas asas, todos as vemos.
- Asas?? Não gosto de bebidas fictícias, dessas para canalha das raves e festas transe…
- Ó colega dos céus. Foste despedido? Quem foi a alma insatisfeita?
- São várias já. Elas bem me querem, mas eu não resisto a uma noite em discotecas e bares e depois…depois abandono-as, essas almas que delicadamente contam comigo e depois…depois…elas que se desenrasquem!
- Agora andamos aqui penados e elas, essas almas que nos despedem sem direitos sentam-se ao lado de Deus…nem são anjos caídos, como eu que me atirei de um 26º andar e aqui ando a responder a anúncios…
- Todos precisam de anjos e ninguém nos dá valor, despedem-nos como se fossemos ratos e ratazanas vadios com pão sem pedir.
- Só se fores tu!! Eu cá sou requisitado por quem não me quer ver nem vivo. Cheiram-me como a uma flor sem odor e sem pétalas. As pétalas que desenham as asas que me vão sendo retiradas, são o pólen das abelhas sem ferrão.
- Não me chateies anjo estúpido!! Vai lá pedir emprego a uma alminha irrequieta! Tens é paleio!
- Paleio a meio de um discurso é tão verdade como as minhas asas serem depenadas sem dor sentir.
- Vai gozar outro. O meu último cliente, um senhor bonito e feliz despediu-me só porque o telemóvel não funcionou quando pretendia pedir uma pizza ao filho que não é dele.
- Eu fui despedido, porque pediram lasanha e não tinha queijo suficiente para derreter as veias dos filhos mimados e desprendidos e despedem-nos em burocracias assinadas por tudo ter
- Anjo da guarda, não há quem te guarde?
Sim, tu!!
Um anjo a tentar esmagar outro.
Ninho
O meu gato sonha contigo, cão. E tu nem o mereces, porque ainda te enrolas nas mantas nojentas dos meus canários falecidos, e depois herdaram as mantas os gatos e finalmente o cão que tu és e não desfazes o ramo que nasceu na minha árvore, já não tenho mais raízes para desposares o que não é teu nem meu…sai do ninho do gato filho de vários canários que nasceram fora do meu ventre e não apareças a não ser para pedires o luar que vi nos olhos que não te vêem…
Amiga sem rosto
Piscina
Na minha piscina encontrei o João. Estava no fundo com os pulmões na guelra. Eu mergulhei uma parte dos braços. Aquela parte que sente o impacto da água e não quer sentir o resto do corpo submerso.
O João agarrou um dedo do braço que mergulhou a falange da superfície do hidrogénio. Vi-o sem expressão e ele viu o túnel luminoso e o cão que fora atropelado há 3 anos, com mais braços que eu e mais patas e unhas, o cão do João lambeu a parábola que ninguém consentiu em vida.
Aprendi a respirar na piscina do João, a voar na superfície molhada, os pulmões a respirarem pelos olhos e pelas moscas que entram na superfície ambulante, independente do solo. Aquelas moscas que entram pela janela do automóvel e ali ficam pendentes, no ar…a gozar a minha dependência e eu sei lá o que menos…e o que mais…
Cães e Avelãs
O meu cão apaixonou-se por uma avelã que um dia passou pela esquina onde o esquinado deposita a urina. O meu cão nessa altura andava agonizado e enfeitiçado pelo patrão que o obrigava a varrer as ruas e vielas onde a avelã deixava a sua presença. A avelã apaixonou-se pelo meu quatro patas e dez unhas, mas ele não consentiu que os avanços dela travassem o conceituado sacrifício, aquele, o de varrer depósitos um minuto importante e noutro minuto deixado ao asfalto calcado por alguma marca de sola.
Ela, a avelã, na sua inocência feminina descascou como sabia um sabor que o meu cão trincou com os dentes errados, e errados os juízos dele perante a avelã, bela, carente e fascinada pelo quatro patas que o meu cão alberga e ela não…o meu cão, estúpido, respondeu-lhe na mesma esquina onde deposita tudo e tudo, o burro animal que nada entende de avelãs depositou um cheiro na esquina, cheiro esse letal. Ela não gostou. Entristecida e amêndoada, foi ela esquinada, um tipo de génio atropelado e resignado, uma estrela fora de órbita, como o meu cão, esse animal lerdo, que se enche de pulmão e ego uma parte de nós que não nos pertence enquanto seres desta coisa semi-redonda, chamada terra, onde todos somos quase iguais independentemente da estrela que se nos guia ou não, a uns mais que a outros e não porque são mais merecedores dela, mas porque a ponta do anzol para lá dançou, ao vento da corrente, sempre aleatória, porque o peixe não escolhe ser pescado para ser melhor saboreado e que bom é temperado a nosso gosto.
Meu cão e minha avelã, não se separem na reciclagem do desentendimento, são iguais na sua reutilização.
Um burro cão e uma mula avelâ.
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