Espelhos
O casal não conversa. De frente um ao outro flagelam silêncios de presença. Palavras? Para quê? São diferentes um do outro, sim…mas haviam de ser iguais como reflexos um do outro? Para quê? O silêncio respeita a essência do espelho que não se quer quebrado.
Carraça
A carraça não escolhe o pêlo. As carraças parecem borboletas contentes esvoaçando de ar em ar e um dia surge aquele pelo fofo onde o descanso parece um pecado necessário. As borboletas são bonitas, sim. As carraças? Nunca lhes vi a cara…só aquela carapaça de caracol sem corninhos ao sol e as patinhas, pequenos ferrões ali agarrados ao cepo das criaturas, a sugar-lhes as correntes, Deus meu!! E retirá-las? Elas escavacam esconderijos, mesmo os pêlos mais rentes não oferecem trincheiras às malvadas voadoras sem belas asas, como as borboletas coladas virtuosamente em painéis de narcisistas sem pêlo no focinho.
Despedida
A minha prima foi despedida. Ergueu-se do sono com uma perna adormecida. A perna ficou debaixo do monte de tecido, a tela de grandes e pequenas metragens amadoras. Deixou-a lá simplesmente. A água correu o corpo, o leite e cevada a laringe. A perna continuou lá, em silêncio, o silêncio da preguiça. Foi despedida a minha prima pela perna que caminhava mais rápido que a outra.
Cão do Talhante
O cão do talhante, o Simão, tem manias…andava eu por aqueles arredores e o sujeito vem enfarinhar os sentidos no meu saco diário. Que quer ele? Não tem ossos que cheguem? Assim continuei rumo sem que o Simão não babasse um fio de serapilheira a cada coordenada. Que queres ó cão? Pega lá um biscoito! O biscoito saltitou duas ou três vezes no alcatrão até a pata endurecida o fazer calar. Deixou-o morto. E como um gato que brinca com o pássaro sem vida, o Simão lambeu a custo o biscoito, encostou o nariz besuntado e ignorou a preza. Pobre exigente!! Logo os melhores biscoitos, os preferidos do meu filho Rogério. Ainda lhe gritei uns mal agradecidos, inúteis, parasitas…mas em vão, ainda me dispara pulgas armadilhadas com baba. Continuei obrigações de serapilheira carregada pela pobreza de um osso sem carne.
Lucinda Macia
Lucinda carregava uma chávena de porcelana na bandeja da mão, da mão amaciada pela água das lágrimas esmorecidas pelo recorte do canto da boca. Ele moldava a poltrona. Os braços pousados em inertes movimentos, simulavam um mudo gesto, o gesto que segura a chávena a caminho pela Lucinda inerte pelos ataques dele, sentado na poltrona que ela moldou com as mãos macias pelas lágrimas.
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