Coisas escritas

reflexões da Benedita Maldita

Pequeno-almoço

Ainda de romela pendurada numa extremidade de um olho semi aberto pela madrugada que fora longa, a voz do outro lado do olho pergunta “que horas são?” olhei o pulso quase por instinto e o sol respondeu por mim. O sol não, a sua inclinação. Conheci-o na noite anterior. Algumas noites anteriores conheci uma foto, um retrato, um testemunho, um sorriso parado pela constante órbita terrestre. Encantou-me o sorriso! sei lá! Não estaria propriamente preparada para o salto ao abismo, mas sempre se arranja um bom pára quedas. Nem preparada nem à procura…mas…há sorrisos…perguntei à foto, depois de a adicionar à lista em ordem alfabética ascendente, se aceitaria um jantar. A foto sorridente aceitou. Ora, tenho dois filhos e um ex marido compreensivo, logo pedi que me desse um “break” e me deixasse perfumar o cachaço uma vez mais e sentir aquela ansiedade bruta de um primeiro encontro. Ele ficou com os meus filhos, permitindo-me aquele remexer de ao vivo apreciar uma voz e um cheiro novos! Não passara um mês em que a presença física do sexo oposto me espaçava o vazio. Não. Eu que nem estava à procura e sem pressa…pois! A condição humana desrespeita as palavras proferidas, que se lixe!
Pontual como os ponteiros do meu relógio, o restaurante esperava um acento à minha medida. Ele chegou dez minutos depois. O sorriso não era mentira, sentou-se e os olhos sorriram sem medida. Conversa, garfada, golada, silêncios, risos, distracções, impaciência, a mistela de ingredientes de encontros cegos. Cega o fiz seguir a minha casa, disse-lhe a vida pelas fotos espalhadas pela sala (até na porta do wc). A conversa previsível, a inteligência comprada e adquirida compraram-me a ingenuidade. Logo aos primeiros sinais que o globo terrestre se faz iluminar, sem que a crise petrolífera o impeça de seguir a sua viagem cósmica, a foto sorridente fala “ai, a minha namorada está à minha espera…adorei este pequeno-almoço”.
Também eu…adoraria repetir, mas para uma próxima não peça um “break” à sua namorada e traga-a também.

Para quem não procura algo, sempre alcança alguma coisa.

Agosto 14, 2008 - Publicado por Benedita Maldita | contos | | 1 Comentário

1 Comentário »

  1. Muito envolvente. Adorei este pequeno texto.

    Comentário por anacnunes | Agosto 15, 2008 | Responder


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