Coisas escritas

reflexões da Benedita Maldita

Mudanças

Passagem_das_Horas_by_DeadlyWitch[1]A mudança da hora atrasa-nos. Quando esta atrasa, é claro. Demoro a rir-me de uma anedota com piada só passados sessenta minutos.

O Elias anda de roda de mim como uma abelha e as patas são molas saltitantes e seus olhos ficam desvairados por uma hora. O atrasado mental do cão nem mesmo com o telemóvel que lhe foi oferecido pela madrinha consegue ver as horas ou ler os noticiários “Ó burro, agora só te dou os restos dos restaurantes daqui a uma hora.”

Prometi ao Serafim que lhe ligava às 16:15, mas já são 18:20. É por isso e por outras que todos me deixam a toda a hora, ora ela se atrase, ora ela se adiante. Acusou-me de atrasada, irresponsável e lenta de memória “És muito lerdinha…” Insultou-me como um vagão, o Serafim, enfim. Fiquei desfeita em vários retalhos perdidos durante uma hora. Não fosse o Elias compor-me, para ele não há hora para a sua Benedita “Pega lá a tua comida ó rafeirinho!” Daqui em diante já sabes que há-de ser sempre esta a hora de ruminares, está bem? Tu és esperto…esperto não, inteligente! Aprendes à velocidade da luz.

É hora de mudança, Elias! Agora tudo acontece uma hora antes. Tudo!

Outubro 30, 2009 Publicado por Benedita Maldita | contos | | Sem comentários ainda

Vincos A Mais

vinco

O Elias não me atende o telemóvel. Raios quebrem o peludo do cão! Querem ser modernos e depois não dão a mínima importância aos objectos. A quantidade medonha de bonecos de borracha horrendos espalhados pela casa e nenhum com vestígios de dentadas. São todos iguais! Fico preocupada. Disse-me que ía ao Canil Municipal visitar um velho amigo abandonado por uma família de oito pessoas, por uma semana no Algrave. Ficaram todos instalados à sombra de uma Arriba e lá ficaram enterrados. Bem feito!

Benedita: ó Luís Diogo, estou deveras preocupada com o Elias.

Levanto-me da perna dele “Ai Bé, que chatice, já fizeste dois vincos nas minhas calças…tss…detesto que te sentes no meu colo! Porque me tratas sempre por Luís Diogo? Eu sou Diogo Luís” Sacudiu repetidamente a mão nos vincos como se fosse um ferro de engomar. “És mesmo panilas…” pensei. Tinha aquela psicose com a roupa. Retirava-a da mala e dobrava-a melhor que um contorcionista. Tudo direitinho, tudo nos vincos, nem as senhoras tratam um vestido Versace com tanto carinho. Se ele me tratasse como a uma camisa, eu estaria sempre abotoadinha, bem composta e muito tratada.

Benedita: insensível! Eu aqui preocupada com o meu cão e tu assanhado com uma ou duas linhas a mais nas calças…mesquinho!

Tentei de novo. Desligado. A comida já está ressequida dentro do pratinho às bolinhas liláses e quadrados amarelos.

LD: ai, tanta preocupação por causa de uma coisa com quatro patas, se ainda fosse um casaco amarrotado Bé. Tens de dar importância a outras coisas, sei lá, como economia, arquitectura, política…que básica, não pensei que fosses assim.

Olhei para o prato do Elias e comecei a fazer o jantar. Ele, sentado no sofá, ainda a tentar desmarcar aquelas dobras provocadas pelas minhas nádegas. Estava atento a um programa para gente intelectual. Jantar na mesa.

Comeu, mastigou, bebeu, mas nem abriu a boca a não ser para o garfo e o copo (e um naco de pão).

Benedita: então, estava bom o empadão de toucinho com chocos?

LD: …ah sim…

Benedita: Parece que não gostáste muito, achas que tinha chocos a mais?

LD: Não…faltava um bocado de sal e sujei um bocado aqui o colarinho com a tinta.

Oiço umas arranhadelas na porta. É o Elias, finalmente!

Benedita: onde te enfiáste? Porque não atendeste? Achas que um telemóvel é mais um daqueles brinquedos esbugalhados?

Elias: desculpa…não tinha rede…

Benedita: não tinha rede? Num canil não faltam redes!

Aproximou-se do Luís Diogo “Ai, ó Bé, tira-o daqui! Está a cheirar-me todo! Ai que nojo, que cheiro! Já estou cheio de pêlo…” afastando-o ligeiramente com o pé.

Benedita: olha lá, se não gostas do meu animal, o melhor é ires-te embora para tua casa vincar o teu interior e colocar sal nas calças, ajuda a fixar os tecidos. Depois ligo-te!

LD: ok, eu vou, mas…não te importas de me dares 5€ para ajudar nas deslocações?

Sim, dei-lhe a nota, mas antes vinquei-a bem ao meio. Choco!

Que bom Elias, ficamos só os dois aqui sentados no conforto do sofá e dás-me lambidelas na cara toda, olhas-me mais que humanamente. Adoro-te cão!

Agora vamos ver aquela novela que tanto gostamos, tu com o teu focinho nas minhas pernas, amarrotas-me as calças e deixas-me cheia de pêlos, mas eu não me importo!

Outubro 28, 2009 Publicado por Benedita Maldita | contos | | Sem comentários ainda

BIP BIP

BIP O sujeito do jantar a um dia da semana, porque sexta o filho estudante universitário regressa aos braços do papá e todo o resto do fim -de-semana tem outros afazêres que donzela alguma terá o poder de os alterar. presumo que o homem sofra de algum modo do complexo de “autismo”.

Ele, coitado e com que sacrifício ligava-me todos os dias para cumprimentar ou como corria o meu dia, etc. Dos nossos quatro encontros a meio da tarde e a velocidade de TGV, os “sinais” educadamente enviados. tais como: “Olha para aquela desenvergonhada, andar na rua com uma saia até às nádegas…que horror, mau aspecto. Sim, na intimidade, num jantar é aceitável e legítimo, mas…a mãezinha nem deve saber que a filha só usa um cinto assim para o largo”

Ou “Eu em casa gosto de andar nu, às vezes vou até ao quintal , os vizinhos espreitam, mas estou-me marinbando!”

Ou “Gostas de vinho? Que tipo de vinho? Maduro e velho? Estou a ver que gostas de coisas velhas.”

Ou “Cheiras bem e és muito gira…eu gosto de saborear por exemplo um bolo, mas se não cheirar bem…ui”

Eu não sou nenhum bolo de arroz, é cada comparação! Além de gostares da superficialidade de algo comestível, também és carnívoro e se o cheiro se espalhar pelo ar suavemente até ao ponto responsável do prazer do teu cérebro, tu trincas.

Desgosto o teu. Durante a semana o primeiro jantar em tua casa?? Não posso querido, nesses dias estou deveras ocupada.

Ele: ok, beijinhos para ti também.

Imagino o desconsolo do filme cortado a meio por ele realizado: o lombo recheado e o vinho tinto preparados e guardados na estante da cozinha, a garrafa já devia respirar até. Combina para uma terça-feira, lá calhava bem para ele essa noite, pois chegaria a casa antes do lusco fusco. Iria buscar-me a casa…buscar-me? Os homens já não montam o cavalo ao encontro da madame. Eu iria ter a casa dele abriria-me a porta nuzinho como veio ao mundo, apenas com uma avental com o desenho do Bip Bip a tapar as partes e comentaria desiludido ” Então Benedita? porque é que vens de saia até aos calcanhares e de blusa de flanela até ao queixo? e esses sapatos, são mais rasos que uma pista de Bowling…”

Benedita: é para te tirar o apetite, embora a tua comida até cheire bastante bem. Agora que tenho o aspecto do Bolo-Rei mastigado pelo Dr Cavaco Silva, mas ainda cheiro a petúlias, ainda te apetece trinchar-me?

Tem cuidado que o Coiote é que acaba sempre prejudicado e olha que o Bip Bip não faz nada por isso. É melhor arranjares um avental com um desenho do Coiote.

Outubro 24, 2009 Publicado por Benedita Maldita | contos | | Sem comentários ainda

O GATO PONTILHADO

O Elias, o meu cão foi dar uma das suas curvas diárias. Aparece-me acompanhado por um gato, faltava-lhe um olho e a cauda parecia o porta-chaves da minha vizinha de oitenta e seis anos. O coitado aparentava vestígios de luta.
Benedita: Elias, quem é este gato?
Elias: salvei-o de uma luta com a gata dele que pelos vistos tem a unha mais afiada que a língua.
Benedita: e agora, que lhe faço? é melhor levá-lo ao médico.
Gato: NÃO!! Tenho medo de médicos, descobrem o olho, depois são as patas, depois é o estômago e vai-se a concluir estou cheio de doenças. Nunca!
Pelos vistos a zanga foi pegada e o Elias é que os despegou.
Gato:…hm…gatas, são todas iguais, se gostamos delas não nos ligam, se não gostamos arrancam-nos os olhos…são todas iguais.
Elias: eu tenho mais sorte, as cadelas são sempre cadelas e gostamos delas assim.
Benedita: vá, gato, não penses assim, não são todas iguais, vais ver.
Gato: ver? só com um olho? desta não me refaço, tirou-me a sétima vida esta gata malvada. E nem gostava dela…
Benedita: olha, pelo menos ainda tens um olho. Eu ponho-te aí um pouco de mercúrio…
Gato: NÃO!! O mercúrio serve para medir a febre, não quero!
Elias: se quiseres vamos à procura dela e arrancamos-lhe as orelhas.
Gato: o quê?? Ía ficar contente, ela só tem quadros do Van Gogh na viela dela.
Benedita: então escolhe o Pontilhismo de Seurat. Imagina um quadro em branco e cada ódio, rancor que tiveres contra ela, acrescenta um ponto, de preferência colorido.
Gato: eu não vejo bem as cores agora só com este olho.
Benedita: inventa. Fá-lo todos os dias, um ponto e mais outro até teres finalmente o quadro todo. Não queiras o quadro todo de uma só vez, sim? Só assim te libertarás dessa gata. Pouco a pouco.
Gato: Elias, a tua dona devia ser gata, mas das boas. Vamos daí beber um copo à viela do Chaneco!
Elias: posso ir Benedita?
Ide lá! Não precisam de tantos olhos para ver tudo.
gato[4]

Outubro 23, 2009 Publicado por Benedita Maldita | contos | | Sem comentários ainda

Aguarde mais um bocado, sim?

Depois de uma entrevista para um desemprego, pediram-me para comparecer no dia seguinte às 12h para formação. No outro dia e às 12h acabadas de dar o último segundo, entro no estabelecimento.
Recepcionista: é para a formação?
Benedita: Sim
Recepcionista: Aguarde então, por favor.
Sentei-me numa das quatro cadeiras de um verde couve. Reparo que os braços das cadeiras estavam arranhadas “devem ter gatos aqui”, pensei. Os minutos correram, peguei em uma ou duas revistas nada interessantes e olhei para o pulso “poça, já passam vinte minutos”
Benedita: olhe, ainda vai demorar muito?
Recepcionista: já não deve demorar muito…
Continuei sentada naquele verde que me consumia, pareciam cadeiras revestidas com restos de esparregado. Trinta minutos passaram, eu olhava para ela a ver se me dava alguma satisfação do género “Peço desculpa pelo atraso, mas o Sr Alcino tem problemas de pele e deve ainda estar a besuntá-la, ou deve ter ido levar a mulher à escola que ainda fica um pouco longe”. Nada! Começo a ficar mais irrequieta que uma formiga, balanço a perna em sinal de ansiedade “Ainda por cima custou-me levantar da cama e apanhei chuva no cabelo para ficar aqui a penar mais que um panado. bem, já passa quase uma hora depois do combinado, será que esta gente tem noção que está viva? Muitas vezes me pergunto quem foi o génio que inventou as horas, elas para a maioria das pessoas nem existem!
Benedita: Olhe, eu não sei porque me pediram para estar aqui às 12h, eu tenho assuntos inadiáveis ainda por tratar.
Tinha nada…
Recepcionista: olhe, o Sr Alcino está doente e vem de propósito para dar esta formação. Mas você quer trabalhar ou não?
Benedita: se não quisesse acha mesmo que estaria aqui à hora prevista? quem não sabe nem quer trabalhar pelos vistos são vocês. Eu por acaso sabia que o senhor estava doente? então estando nós na era das comunicações seria só avisar e adiar para outro dia. Acha mesmo que se quero trabalhar tenho que aguardar naquelas coisas verdejantes até às 15h? Dormir por cá? Que falta de respeito a falta de pontualidade, francamente, minha senhora…e digo mais, se quiserem marcar algo comigo por favor indiquem uma hora, eu estarei aqui e exigo que o formador esteja também!
Recepcionista: como queira…boa tarde!
Uma hora à espera e de quê? de nada. Tempos perdidos e podia ter feito tanto, ter acontecido tanto. Tinha mais que tempo para arranjar o buço, encontrar uma nota de 50 € no chão não estivesse ali a vegetar, podia ter encontrado alguém que me desse oportunidade de receber um ordenado acima da média…tanta coisa…
Afinal não são gatos que arranham os braços daquelas cadeiras, são outros como eu e pelo estado das arranhadelas bem esperaram.

Outubro 22, 2009 Publicado por Benedita Maldita | contos | | 1 Comentário

MUITO ENCONTRARÁS…


Quarto encontro:
Ele: Estás diferente…não foste à praia?
Benedita: sim, fui, mas as ondas estavam contra a minha corrente.
Ele: Contra quê?
Benedita: ouve…afinal que queres de mim, poça?
Ele: Acho que és muito gira…não és propriamente nenhuma Broke Shields, mas também não és exactamente uma deputada dos Verdes.
Benedita: Francamente ó Santos Ribeiro, também não és pinheiro com pinhas e azeitonas que esperava ver crescer no canto da minha janela virada para Oeste. Queres o quê de mim?
Ele: acho que és gira, quero convidar-te a jantar em minha casa, mas nunca às Sextas, Sábados e Domingos.
Benedita: Calha bem, nesses dias tenho que mudar as toalhas da cozinha, levar a minha bisavó a casa do meu tio, ler os artigos das empresas com cotações na bolsa muito favoráveis ou não e outras funções inflexíveis para me encontrar contigo nos dias da semana mais apetecíveis e livres para um quinto encontro.
Ele: Não me leves a mal, mas tenho o meu filho comigo, um gajo com 27 anos que precisa da asa do paizinho, achas que vou abdicar dele por tua causa?? Chiça, vives em que atmosfera? E tenho jantar/almoço em casa da família todos os sábados!
O que devia ter dito e não disse: Tens razão, uma senhora sem filhos não tem raízes prendidas como desculpa para a prisão de se relacionar com outros frutos caídos, podres, mas frutos ainda.

Outubro 21, 2009 Publicado por Benedita Maldita | contos | | Sem comentários ainda

CONTRA-NÃO


“As mulheres devem ser independentes dos homens”. Concordo contigo Diogo Luís, concordo. Agora te pergunto: Os homens devem ser independentes das mulheres? Não me parece Diogo Luís…e fica sabendo, eu não andei a queimar sutiãs por aí, até porque ainda nem tinha idade para tal, mas não quer dizer que não tenhais que andar sempre no lado mais perto da estrada, levantar da cadeira no primeiro e outros encontros, pagar o jantar, o café, a cerveja ou o gin…creio que quando nos tiram o sutiã não é para queimá-lo…ou será?

Outubro 21, 2009 Publicado por Benedita Maldita | contos | | Sem comentários ainda

SE A CORTESIA FOSSE UM QUADRO…


No terceiro encontro.
Ele: olá, chegaste há muito?
Benedita: Nã, cheguei ainda não tinhas chegado. Não me viste? Olha, pedi um cachorro-quente, ainda não têm gatos siameses. Também queres?
Ele: Estou tão cansado…seis clientes e nenhum quer assentar o traseiro na segurança. Estás gira hoje, foste à praia?

Benedita: Fui, só um mergulho nas águas frias me tornam única, mesmo sem olhos verdes ou grandes com pernas de centopeia.
Ele: ah… – expressão inteligente – ah…
Benedita: olha, estava eu a pensar…
Ele: Olá Sandra, estás boa? Ah sim, em Cuba? Ora conta lá…sim…ahahahahah….porra, eu não tenho férias….sim….ahahahahah…já não ligavas há muito, era para te ligar, mas tenho tido a chaleira no lume, no entanto e deves entender…sim…ahahahah…
Benedita: Ó Tó, traz-me a ementa e um palito, por favor – parecendo espalhadamente inteligente pelas galinhas das mesas vizinhas – obrigada!
Ele: A sério?? Não me digas, depois de tanto tempo ele foi ter com a outra? Pois…sim, comprei o último álbum do Sardet, adoro! Está calor aí?…sim…pois…ahahahhahahah…
Benedita: Olha Tó, traz-me a ementa de outro café, acho que estou a ficar com a perna dormente, mas mesmo assim os dedos afincam para a tosta-mista.
O Tó, competente como um chapéu em tempo de chuva trouxe finalmente o meu cachorro e o do Samuel.
Ele: Olha, Quica, vou ter que desligar, tenho na minha frente um cachorrinho-quente à minha espera, estou cá com uma fomequinha…tá…beijoca….
E eu, espantada não me espantava que desligasse o telemóvel por causa da “cachorrinha-quente” do outro lado da aresta.

Outubro 21, 2009 Publicado por Benedita Maldita | contos | | Sem comentários ainda

E LI…

Quando conheci o meu cão, o Elias, com o focinho babado por entre as duas linhas ferrugentas e duras vi logo que seria meu. Assim como quando se conhece o “tal”. Mas tal nunca conheci…coisas que se ouvem, diz-se.
Levantou o focinho, babou as mangas do casaco de verniz e disse: “Tenho a certeza que a tua casa não tem tantas linhas riscando a minha liberdade”. Peguei no bicho por uma carraça e várias pulgas aproveitaram a boleia aos assentos do meu automóvel de verniz. Ah que conforto, disse ele, o Elias. Entretanto ligou a ar-condicionado com uma das unhas das patas que lhe faltavam. Tens nome ó cão? perguntei. O olhar respondeu “és capaz de ler?” e lia…e lias sim, Elias!

Outubro 21, 2009 Publicado por Benedita Maldita | contos | | Sem comentários ainda

ELIAS


Não sabia que o meu cão era bege. Era e é. Vi as minhas luvas envernizadas de branco insípido tornarem-se nubladas, restos de ferrugem o cão trazia no pelo, pulgas falecidas e enterradas, já as carraças pareciam mapas que julguei ser malhado. Ó Elias! E não, não me olhes com esses olhos de cão…

Outubro 21, 2009 Publicado por Benedita Maldita | contos | | Sem comentários ainda

PODES IR…

Ele: ah…desculpa, mas não te importas de ir embora?
Benedita: `tá bem, já vou…
O que Benedita devia ter respondido: Olha lá ó meu grande bode, pensas que sou algum estrugido ou o quê? Lá azeite não me falta, tu mo deste, mas não julgues que esse azeite me faz deslizar suavemente enquanto tu te deitas naquilo que secou…o azeite seco não cheira a futuro…

Outubro 21, 2009 Publicado por Benedita Maldita | contos | | Sem comentários ainda

Entrevista Parte I


Hoje fui a uma entrevista para uma loja colorida de colares, carteiras e esses adornos que nós mulheres (algumas) não dispensamos. Entreguei o CV e omiti a minha idade. Cheguei ao espaço comercial à hora certa “é para a entrevista?” sim, digo eu, avolumada de sorrisos “Atão diriga-se ali ao local dos cafés, tá lá uma senhora de cabelo amarrado, debe tar a entrebistar algumas meninas. Tem cabelo amarrado e uma camisola branca e azule”. Poça, ser entrevistada no meio de lanches, sandes e sopas rápidas?? Lá fui. Vi a camisola azul e branca. Entrevistava uma candidata, numa mesa improvisada de escritório. Esperei. Levantei-me e dirigi-me ao “escritório” quando vagou a cadeira de coiro preto. “É para a entrevista? Tem que esperar, houve um atraso, tem mais duas meninas na recepção”.
Recepção = cadeiras e mesas espalhadas pelo recinto de restauração do aglomerado comercial. Moças salpicadas pela recepção, sem consumo ou oferta de café à conta da empresa.
Eu, muito simpática “ah sim, eu aguardo”. Sentei-me. Olhei de soslaio as rivais ao lugar dos colares. Eram mais jovens que eu…todas! A demora fez-me esperar em frente ao cubículo indicador das condições atmosféricas do recinto, publicidade das lojas, adivinhas, horóscopo, receitas, imagens de cenas caseiras com ebulições de piada, etc etc. Chiça, porque sou eu tão pontual?

Outubro 21, 2009 Publicado por Benedita Maldita | contos | | Sem comentários ainda

Entrevista Parte II

Chegara a minha vez. Tenho a certeza que nunca olharam o CV antes.
Eles: Então Benedita, já trabalhou?
Benedita: Sim…
O que devia ter respondido: Não, oras, não tenho que fazer e contribuo para a depilação do arvoredo, e digo-vos, imprimir três folhitas destas, podia vos obrigar a pagá-las…
Eles: Trabalhou em loja, mas estamos aqui a ver que já foi há anos…bem isto não interessa…
Benedita: Interessa sim, faz parte do CV, é toda a minha experiência.
O que devia ter respondido: Não interessa? Oiçam lá ó parolos, onde estavam os senhores há 10 anos? Como aqui vieram parar? Não interessa? Pois não, tu, a da camisola azul e branca deves ter vindo aqui cair à custa de muito colar, brinco e pulseira, e o “muito perto do chão”, pela cor dos dentes deves ter muito pouco cálcio e pelas mãos de Bola de Berlim com dedos, tens pouco tacto de certeza…
Eles: que tipo de contrato teve anteriormente?
Benedita: Um contrato assim, assado, isto, aquilo, etc
Eles: Nunca ouvimos falar em tal tipo de contrato…
Benedita: Não? Mas era assim, assado, isto, aquilo, etc
O que devia ter respondido: Nunca ouviram falar? Onde estavam há dez anos? Pode ser que aprendam com os mais jovens e actualizados, não? Parolos!
Eles: Benedita, conhece as nossas lojas?
Benedita: Sim, assim por alto…
Eles: O que acha?
Benedita: É uma loja muito gira, tem muitas cores, alegria, mas a música deixa qualquer orelhinha sem vontade dos vossos brincos…
O que devia ter respondido: A-do-ro! Linda! Giríssima, aliás o meu maior sonho é trabalhar numa das vossas dependências, a principal razão do meu estado de desemprego é por nunca ter tido a oportunidade ambiciosa de fazer parte de tanta cor e música. Adoro música actual nas alturas dos decibéis.
Eles: Benedita, costuma usar adornos?
Benedita: Sim.
Eles: não parece… – acompanhados de meio sorriso.
Benedita: Trago estes enormes brincos, nem sempre utilizo toda a minha bugiganga – acompanhada de meio sorriso.
O que devia ter respondido: A-do-ro bugiganga. Aprendi que para uma entrevista não devemos trazer muita coisa pendurada…mas…e se fosse uma loja de lingerie??
Eles: Usa maquilhagem?
Benedita: Uso.
Eles: isso não chega. Deve utilizar algo mais carregado.
O que devia ter respondido: Uso claro, tenho inclusive uma paleta carregada de cromados em casa, mas hoje não tive muito tempo, porque tinha a panela no lume, mas sim, uso tudo que é tinta, até nas orelhas. À exaustão!
Eles: Importa-se de trabalhar até às duas da madrugada se for necessário? Não se importa de andar com o cabelo amarrado?
Benedita:…Bem, claro que não…
O que devia ter respondido: Até às duas da matina? Sim, claro, até porque trabalhar para vocês é um prazer, fico às duas, às três, eu viveria para e por vós! Cabelo amarrado? Deixei-o crescer dois anos propositadamente para o amarrar às orelhas das vossas condições. Que pergunta…estou à vossa e inteira cabeleira.
Eles: É que tem que usar o cabelo assim, para mostrar o nosso produto.
Benedita: De acordo!
O que devia ter respondido: Olhem, meus “senhores”, eu uso o cabelo até onde e como me apetecer, compreendido? Cada cabelo espigado tem uma história, e nada me fará apagá-las, nem as tintas dos vossos bordados, nem o pouco chá nas vossas vidas. Entrevistas para emprego na área da restauração de um centro comercial? Sem palavras…
Eles: Bem…está tudo dito então…- cumplicidade entre os dois – diremos entre hoje e amanhã, sim?
Benedita: Sim, aguardarei.
O que devia ter respondido: Não!! Eu fico, eu quero este lugar, não matem o meu sonho com esta espada fria e crua, por favor, pelos meus cabelos e maquilhagem, e pelas madrugadas, não me tirem tudo, não me tirem as brancas! Por favor!
Eles: Boa sorte…
Boa sorte para vocês também, parolos empregadores.
Fraco Rei, Fraco Vassalo.

Outubro 21, 2009 Publicado por Benedita Maldita | contos | | Sem comentários ainda

EDUCAIDO-VOS!


Em um qualquer segundo encontro:
Ele: falando de viagens, nunca perdi bagagens – assoa o nariz – mas uma vez perdi o meu computador no wc do aeroporto de Cascais…
Benedita: Ah sim, interessante, eu nunca perdi bagagem nenhuma, mas sempre carrego as bagagens dos outros.
Ele: Pois – seguido de uma expressão de inteligência facial – Pois… – inteligência?
Benedita: Afinal que idade tens? Nunca me disseste, malandro – Sorrisos queridos com muitas rugas em redor dos olhos, nas patas de galinha, a galinha que o vizinho prefere – diz lá, não te acanhes…ihihihiihhi
Ele: Queres saber muito…
Florbela: ihihihihiih…..ihihihihiihhi
Ele: Nesse aeroporto vi a mulher mais bonita de toda a minha vida…era Linda, olhos verdes, mas indiferente a todos, sabia que era apreciada…uma coisa fora do normal…exótica.
Benedita: ……..
O que devia ter dito: Ouve Samuel, se tiveres ouvidos da tua idade…a tua avó ou bisavó não te ensinou que aquando na presença de uma senhora, não existe nenhuma, mas nenhuma, nem no espelho quebrado das histórias de fadas e bruxas, mais bela que aquela que está próxima das tuas fossas nasais? Sim, sei que não sou propriamente a Michelle Pfeiffer, mas também não me assemelho propriamente a uma deputada do Bloco de Esquerda.
Distraía-se com a chegada de uma tosta mista. Eu distraíra-me com a chegada de uma bosta vista.

Outubro 21, 2009 Publicado por Benedita Maldita | pensamentos | | Sem comentários ainda

SALTO EM ALTURA?


DL: Não consigo entender aqueles casais em que ele é mais baixo que ela, ai sei lá – um dedo no queixo, inteligente, ou a querer parecê-lo – é ridículo, não achas Benedita?
Benedita: Bem, eu não sou propriamente a Cláudia Shiffer em altura, mas também não sou propriamente a Edit Piaf, mas que falta fazem alguns centímetros de alma? A menos ou a mais?
DL: É isso e mulheres com cabelo aos cachos…ai, eu não era capaz…
Benedita: Diogo Luís, o meu cabelo é liso, a minha cabeça toca o teu ombro. Porque será que não te vejo?

Outubro 21, 2009 Publicado por Benedita Maldita | pensamentos | | Sem comentários ainda

AO TEU LADO


Cavalo alado, cão ao lado. Tenho tanto cão ao meu lado e sinto-os no bafo, é quente e feio o bafo deles, mas ao mesmo tempo tão aconchegante, tão contentes aos pinchos por me verem, depois de segundos de ausência, tão parecidos contigo, que não me recordas há meses. O meu cão não tem ex mulheres nem ex cadelas, ele só a mim arregaça as quatro patas até ao limite, e beija-me, cheira mal, é peludo, é feio…é o meu levantar quando não me apetece, é o meu cão ao meu lado, quando não me apetece ter-te ao lado.

Outubro 21, 2009 Publicado por Benedita Maldita | pensamentos | | Sem comentários ainda

ENCONTROS IMEDIATOS

Um dia destes fui a um primeiro encontro. Um primeiro com o vislumbre de muitos outros primeiros…enfim. Sempre acreditei que a primeira impressão fica carimbada. Nem sempre. O carimbo às vezes está desbotado, gasto ou alguma peça se desprende na pancada em um outro papel. Seja como for, a primeira impressão sai sempre mais clara que a gema.
Ele: olá. Chegaste há muito?
Benedita: Não, cheguei agora mesmo, vim mesmo atrás de ti, não me viste?
O que deveria ter dito: Bolas pá, estou aqui à tua espera ainda o meu relógio teimava em demorar os goles de café, tantos e fartos, escuros como o motivo que me trouxe a este lugar.
Ele: Desculpa lá o atraso, demorei mais que o previsto com um cliente.
Ele: olá. Chegaste há muito?
Benedita: Não, cheguei agora mesmo, vim mesmo atrás de ti, não me viste?
O que deveria ter dito: Bolas pá, estou aqui à tua espera ainda o meu relógio teimava em demorar os goles de café, tantos e fartos, escuros como o motivo que me trouxe a este lugar.
Ele: Desculpa lá o atraso, demorei mais que o previsto com um cliente.
Benedita: Não faz mal, eu também estou desempregada, por isso não tenho clientes que me façam atrasar encontros.
O que deveria ter dito: Por favor Joaquim, eu esperaria por ti até que a sombra me resfriasse. Se bem que tinha umas tulipas para regar, mas encarreguei a minha neta mais nova que diz querer ser jardineira, como um rapazito se diz astronauta ou bombeiro…bem nos poderíamos alimentar desses bons gestos, descobrir o que há para descobrir e apagar fogos sem fumo.
Benedita: Não faz mal, eu também estou desempregada, por isso não tenho clientes que me façam atrasar encontros.
O que deveria ter dito: Por favor Joaquim, eu esperaria por ti até que a sombra me resfriasse. Se bem que tinha umas tulipas para regar, mas encarreguei a minha neta mais nova que diz querer ser jardineira, como um rapazito se diz astronauta ou bombeiro…bem nos poderíamos alimentar desses bons gestos, descobrir o que há para descobrir e apagar fogos sem fumo.

Outubro 21, 2009 Publicado por Benedita Maldita | pensamentos | | Sem comentários ainda

TEM JUÍZO


Quando acordo às vezes, quando acordo, nem sempre o faço, por não me apetecer ou nem valer o esforço, ele espera-me numa das arestas do quarto. Aqueles olhos parecem tão reais como o facto de me ter encostado num desses tons azulados da indiferença. O meu cão dá sempre sinal quando ele se senta aos pés da minha cama, não para me perdoar, mas para me pedir perdão do pecado que não cometi. Poça, afinal para que serve o tal juízo final? Eu perdoo-te!
A imagem não é Bosh, é Brueghel.

Outubro 21, 2009 Publicado por Benedita Maldita | pensamentos | | Sem comentários ainda

MATERNIDADE RESPONSABILIDADE


Ele: Não trabalhas? Não tens filhos? Nunca foste casada? Não tens filhos? Com essa idade? Poça, porquê? Não é normal!
Benedita: Achas?
O que Benedita devia ter respondido: Quando ponderei ter crias, vinha-me à mente o progenitor e pela consciência da portadora da cria e pelo da mesma em relação aos candidatos a tal alicerce, assentei os meu dois pés, com os cinco dedos de cada lado e pensei: poça, ter filhos? É bonito, é lindo…e depois? Quem é o pai, quem são os pais? Porque vão eles para o Canadá ou para o Chile? Quem sustenta as fraldas, o leite, a roupa, a escola, o pediatra, as noitadas, a universidade, o desemprego etc,etc, quem?
Ele: …Sei lá, eu não de certeza…

Outubro 21, 2009 Publicado por Benedita Maldita | pensamentos | | Sem comentários ainda

JANTAR??


Ao fim de um quarto encontro, não mais de meia hora cada e com vírgulas de conversas telefónicas interrompendo o diálogo que não aconteceu, ele sugere um jantar. Um jantar? Calhava bem, ando esfomeada, só maçãs e sopas me têm servido.
Benedita: Claro, combina então isso.
Ele: Olha, como já sabes não pode ser à sexta, sábado e domingo…
Benedita:…não?
Ele: Não! Aliás gostava de o fazer em minha casa.
Florbela: Em tua casa?
O que Benedita devia ter dito: Em tua casa? Mas por quem me tomas para me tomares assim de garantida? Ah pois…agora entendo aquelas tuas observações púdicas acerca das adolescentes com saias em forma de cintos…pois…comentavas que vestidas assim só para um jantar, na intimidade, etc. Pois…achas que nasci ontem? Ontem não, mas anteontem sim, ok?
Ele: Foste à praia? Qualquer dia vou ter contigo só para te ver de biquíni…
Benedita: ahaha… – riso com icterícia.
O que ele queria ouvir: Ai ó Joel, não precisavas de ir à praia para me veres em bi traje….ihihihiih….
É-se disponível, eles dispensam-nos mais depressa que umas meias usadas. É-se indisponível, eles dispensam-nos mais depressa que um choque em cadeia.
Espanta-me, mas não me espantes!
Ele: Sabes, é que eu sou como um apreciador de arte, neste caso vejo o aspecto do bolo, gosto de sentir o cheiro e depois tenho que o experimentar…
Benedita: mas olha lá, ó Constantino, achas que sou um éclair? queres um conselho? vai mas é amassar a massa que o Diabo ainda não amassou!

Outubro 21, 2009 Publicado por Benedita Maldita | contos | | Sem comentários ainda