O Dejecto
A senhora idosa movia-se com apenas um dente, mas a perspicácia tinha os dentes todos “Menina, o seu cão fez coisas ali nas escadas, tem que limpar”. Eu, envergonhada nunca o faria (aquelas coisas) , mas lá porque uma coisa que seja minha não me responsabilizo pelos seus actos menos impróprios. Ou serei conivente? É algo em órbita mesmo que seja um filho?…é o meu cão! Ainda por cima um cão que nem marca registada tem. A velha é uma nojenta! tem 97 anos, nunca morreu, tem oito filhos, dos quais três faleceram e ela intacta como um muro a sabor a cimento. Deve ser da naftalina. E vê-se no olhar dela, são faíscas bombardeadas de inexpressão. Evito aquele olhar, nem é olhar, são olhos, duas coisas arredondadas, sempre iguais, sem espaço para um decilitro de lágrima.
Quatro bocados de papel higiénico catados, dois cilíndricos produtos do intestino. E eu sei lá se foi o meu Elias! Há pelo menos mais dois respirantes de quatro patas neste aglomerado de betão! O raio da velha, deve ser má má como as tempestades, e Deus a resguarda connosco, deve ser para gozo, só pode! Me disse o dedo ocular de uma amiga dela que não tomava banho e que dormia coberta por um lençol de linho puro. branco como naftalina.
Segundo o filho mais novo e o mais tóxicodependente deles todos me disse “É ruim a velha, a única doença que teve foi uma unha encravada e uma espécie de gripe das aves. Uma vez caiu e bateu com a cabeça numa cadeira…quem se partiu foi a cadeira.”
Raio da velhaca. E depois queixam-se nas objectivas da TV, que coitadinhas, os filhos as tentam envenenar com bolas de naftalina no Natal.
Vá Elias, para a próxima faz bolas de cianeto à velha.
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