Carnaval Assimétrico

No Carnaval fantasio-me de senhora das limpezas. Não tinha ideias originais como vestir-me de fada, freira, bomboca, bruxa, pijama, Indiana, palhaço, anos sessenta, etc.
A bata da cozinha ainda a cheirar a fritos e com nódoas, uma saia quadrada até à rótula, collants brancos e umas peúgas verdes abaixo das rótulas.. Nos pés, as chinelas felpudas cor-de-rosa roídas pelo Elias e corroídas pelo óleo ainda em fúria. Uma caixa de plástico de detergente servia de transporte para as chaves, o porta-moedas, perfume, espelho, clips, caneta, batom, lenços, canivete e uma escova. Luvas de plástico e no cabelo um lenço florido colorido e numa das mãos um espanador do pó. Nesse Carnaval conheci o Ronaldo. Era amigo de um amigo da minha amiga. Trazia um fato e gravata quadriculados. Parecia uma mistura de palhaço com um projecto urbanístico. O sapatos deviam ser do pai do bisavô. No rosto trazia a máscara do “Fantasma da Ópera! “Era músico, por sinal, tocava harpa ou uma coisa assim. Só lhe via metade do rosto. Conversámos, bebemos, dançámos e de vez em quando passava com o espanador pelos quadrados do fato, mas ficavam intactas aquelas cores sem dizer nada umas às outras. E as calças? Estava mesmo ridículo, teve gosto!
Ronaldo: Quem te deu a ideia de te mascarares à sopeira? estás mesmo um prato!
Benedita: Não preciso que me dêm ideias. Tenho as minhas próprias…
Pela noite adentro (ou afora) fomos conversando dentro do previsível. A noite amanheceu, descalço as luvas de plástico e bloqueio aqueles primeiros incomodativos raios do dia.
Ronaldo: amanhã posso ir buscar-te ao emprego?
Benedita:…hmm…está bem, se quiseres. Saio às 17h.
Parece que este gostou de mim, mesmo vestida à senhora de trabalhos domésticos aborrecidos como os discursos do Rebelo de Sousa.
No dia marcado e com dez minutos de antecedência vejo o Ronaldo a aproximar-se da loja. “Poças! será que o rapaz nem foi a casa? perdeu o comboio? Está com a mesma indumentária…mas que raio…até as polainas estão onde estavam ontem.” Apenas retirou a máscara. Conheci a outra metade do rosto. Que dez minutos tresloucados, não passam e enquanto dobro roupa e atendo clientes só vejo quadrados e mais quadrados, e polainas. Rosto simétrico. Não aprecio coisas simétricas, faz com que uma metade seja idêntica à outra. Não acredito em gêmeos, nem em almas (gêmeas). É monótono, desinteressante sem nada diferente a explorar. Não vejo beleza na simetria, só na distorção.
Ronaldo: Olá, como vês sempre vim – e sorriu.
Benedita: …pois…não foste a casa? Ainda estás mascarado…
Ronaldo: eu visto-me assim, só me mascarei com a máscara.
Benedita: ah…olha Ronaldo, desculpa, mas ontem não te disse…sabes como é, eu tenho namorado há algumas semanas, toca clarinete aqui na Junta da Freguesia…esqueci-me de te contar no calor do Carnaval. E também agora não dava para tomar um café, tenho que ir desparasitar o meu cão…
Ronaldo: ok, prontos! Fica bem então…
O rosto dele ficou aos quadrados torcidos, coitado, ficou desgostoso.
Fui para casa. Vesti a bata da cozinha, as luvas de plástico, as chinelas, o lenço no cabelo “Querido Elias!!” e salta de alegria, lambe o ar, levanta voo com a rotação da cauda, parte-me mais um biblô, lambe o meu rosto assimétrico e pede biscoitos, daqueles em forma de gato. Cão interesseiro!
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