Fumo ou Vapor?
“O seu fumo incomoda-me!”. Olho para a voz de cabelo armado até ao candelabro, uns olhos parecidos com aqueles batráqueos que se costuma engolir vivos. “Como disse, minha senhora?”. Repetiu “O seu fumo incomoda-me, não entendeu?” A senhora ou é estrábica ou tem estrabismo intelectual. Permaneci indiferente. Farta de aturar loucos, bolas! Não me deixei consumir enquanto consumia a minha quente sopa de legumes e feijões. “Menina! o seu fumo está a incomodar a estrutura do meu penteado, quer fazer o favor de mudar de lugar?” Fumo? Vapor, minha senhora.
Analisando ao detalhe a velha senhora, os olhos de batráqueo estavam embaciados como um pára-brisas em tempo húmido.
Benedita: Desculpa, minha senhora, eu não me mudo daqui, a única solução é que me ajude a comer a sopa, para que o vapor se dissipe.
Senhora: Se a menina não se importar…agradecia até.
Pedi um prato e dividi a sopa. O vapor foi de boleia com a colher provocando lágrimas de tinta negra que contornavam o olhar, deslizando como lágrimas gota a gota na sopa.
Depois evaporou-se…
Ofereço-te Gambas

Diogo Luís: Quero uma salada, mas os tomates têm que ser vermelhos, vermelhos, muito maduros! Senão nem vale a pena trazer.
Era sempre a mesma conversa. Eu já me começava a encher daquele “Conde”como uma barragem com as comportas fechadas . Travessa na mesa ornamentada por gambas e algumas ameijoas.
DL: Pega lá umas gambinhas, olha como te trato como uma donzela…tens tanta sorte comigo.
Ele oferecia-me algumas gambas, ou seja, não eram divididas a meias. Eu venci nessa disputa:
Benedita: Se me estás a oferecer a tua parte gamba como se fosse um colar de ouro é porque não as deves apreciar – sorriso mais ou menos irónico – pois!
Ficou ofendido como quem é apanhado a desfrutar o que se desdenha. Comeu-as todas! para meu castigo.
DL: Olha-me só aqueles tronquinhos…ai…que gente tão horrorosa.
Pergunto-me que faço com este snob pseudo intelectual. É a paga, é karma! Terei nesse vivência extra-dimensional remota envenenado o homem, muito lentamente com tomates? Verdes , não maduros. Não sei…por algum motivo partilho parte da película do filme da vida com ele.
Café e a “dolorosa”. Dolorosa era o que ele chamava à conta. Dolorosa seria se ele pagasse pelo menos a minha dose de gambas que rancorosamente estripou. Começava a ficar preocupada com a minha vida desafogada com este “senhor”. O meu orçamento esvaziava como uma bexiga e já não havia muita mais água para tornar a forrá-la. Sempre a almoçar e jantar fora ao fim-de-semana?? E, segundo ele, é Director Comercial de enlatados de atum e sardinhas, vivia com os pais aos 48 anos, sem descendência e nunca usou anilha no anelar. Ao menos uma lata de atum, conta a intenção! Já muita sorte tinha com as gambas (excepto hoje). “Ai que sorte tu tens em teres arranjado um namorado como eu…quem dera a muitas, sabias? Tenho a certeza que nunca foste tão mimada, viajas, levo-te a concertos, cultivo-te…ai Bé…”
E ficava com aquele sorriso meio inerte e ao mesmo tempo retirava um pedaço de gamba com um colarinho. Porco! Tantas manias e olhem!
Benedita: Não tens lenços? Pega lá um. São 0,05 €.
DL: Ai Bé, és tão forreta…Deus mo livre!
Elias, o Cão
O meu cão, o Elias, hoje acordou com a cauda apontada para o subsolo. percebo logo assim que o meu ângulo de visão o detecta…ora, o tipo, que é um inerte, nada faz, mas põe sempre o despertador para as 7.00 da matina. Desliga-o com a cauda, circula a língua pelo focinho, entorna baba pelo acrílico do chão (mancha tudo, o tipo) e diz: “ahhh, onde está a comida?” seguido de um sonoro arroto. Hoje nem arrotou….desconfio logo. Viu-me, por acaso cruzou-se por mim no corredor, nem “olá” disse….o gajo…era o que mais me faltava…”que foi? Estás a olhar para mim?? vê lá se queres que fale francês…ai, mau mau!” E eu, bem, o melhor é ignorar. Coçou algumas pulgas, deslizou as patas, sacudiu o focinho e acendeu um cigarro.” ó anormal, não sabes que o tabaco mata?”, argumentei eu, preocupada com a saúde dele. Ele nada! Ignorou-me e ainda por cima pôs-se a roer os chinelos do meu falecido companheiro, que o trouxe cá para casa e podia era tê-lo levado com ele…”ai mata?? mas quem morreu foi o teu maridinho, que levava uma vida saudável. Valeu-lhe de muito! tss tss!”. O anormal a pensar assim nem olha para os lados ao atravessar numa passadeira e com o sinal verde para peões. Olhem para ele. Não faz nada de nada. Acorda, come, bebe água, vai à rua, defeca e urina, deita-se e dorme o dia todo…vida de cão? Vida de cão é a minha, que nem cauda tenho para exprimir a minha disposição.
Não Respiro!!

Antes de entrar no carro desesperou Diogo Luís um “espera!!” sofrido: solas sacudidas, a terra a esta pertence, restos de migalhas saltam para os bicos dos pássaros, mas nunca, nunca decididamente no interior do automóvel do Diogo Luís. Experiente no que respeita a interiores de carros, aquele suspendeu-me: Mais limpo que um ex toxicodependente. Reluzia tudo o que não era ouro. Como conseguia o Diogo Luís conduzir ainda permanece um mistério, aquele brilho fulminaria os óculos do Ray Charles. Tive até receio de embaciar os vidros com a expiração. Não respirei durante toda a viagem…
Pedante Constante

Uauuuuuu, que colosso! Já viste que arquitectura, Bé?? Era apenas uma paragem de táxis, pensei. Saiu do carro embevecido e foi ter com um taxista sonolento que mastigava lentamente uma sandes de beterraba. Oiça, quem foi o arquitecto desta maravilha? O homem baixou o rádio que transmitia som local, “eu sei lá…vá perguntar à Câmara.” Se quiser levo-o lá, são 5,01Euros.
Foi ter comigo e pediu-me 2,51 Euros e que me despachasse a entrar no táxi. Nem tive tempo de limpar o cadáver do insecto qure tinha morto no carro dele com o dedo. Entramos apressados, sentei-me em cima de um saco de plástico e devo ter partido alguns ovos e juro que ouvi um sofrido “piu”. O homem conduzia ora com as mãos no volante, ora com as mãos na sande e cantarolava ao som do rádio. “É o meu sobrinho que está a cantar…tenho muito orgulho nele!” Devia ser o único a ter orgulho mais quem o fez e pariu. Chegamos à Câmara e o Diogo Luís cegou tudo e todos com a ânsia. Inserimo-nos numa sala bolorenta, da cor dos dentes de quem toma dez cafés e fuma cinco maços por dia. Uma senhora cabeluda, com hastes pelo rosto redondo, sobressaltou com a nossa entrada e pelo olhar inexpressivo do Diogo Luís. “Bom dia, como posso chegar à pessoa responsável pela paragem de táxis?” A senhora elevou-se de uma cadeira ruidosa, assoou o nariz e mordeu uma sande e meia de beterraba, “quem são os senhores?” Ajeitou uma haste partida ao mesmo tempo que fungava uma gripe. Sou um gajo interessado e culto pela cultura do meu país…quero que me diga quem arquitectou aquela obra aqui no meio de nenhures. A Dona Silvina Cueiros (estava escrito o nome numa placa em cima da secretária) vacilou a grandiosidade do Diogo Luís, “ai menino, num sei…vá ali ao primeiro andar, eu só atendo telefones.” O Diogo Luís riu-se com ironia, “Não sabe?? Por favor, então põem gente aqui a trabalhar que não sabe nada? Como é possível? Você devia sim de estar a limpar casas-de-banho ou em casa a cozinhar em banho-maria para o seu Manel…gente do povo…chiça!” A D. Silvina retirou as hastes e antecipou um espirro, “olhe, vá apanhar na primeira sílaba do meu apelido, sim?” Voltou a sentar-se, a cadeira gemeu e continuou caminho seguindo os rastos da tinta que o tubérculo sangrava. O Diogo Luís não entendeu o insulto. Eu sim.
Porque, porqeu
Esta disfunção, quase uma anomalia, o ser-se disléxico, só traz merda. Começa no princípio: mandam-nos ler um simples texto e depois o professor pede para sucintar…chiça! Que tormento! Eu lia palavra a palavra, sem as conjugar. “Menina Benedita, sucinte o que leu!” Deus Meu”, eu só li palavras, agora explicar, conjugar? Peça ao esperto da classe que não inteligente, além de boa memória.
E lá descrevia a “inteligente” da sala todo o texto e a única coisa que fixava era o Francisco três mesas atrás de mim ao lado direito.
O Dejecto
A senhora idosa movia-se com apenas um dente, mas a perspicácia tinha os dentes todos “Menina, o seu cão fez coisas ali nas escadas, tem que limpar”. Eu, envergonhada nunca o faria (aquelas coisas) , mas lá porque uma coisa que seja minha não me responsabilizo pelos seus actos menos impróprios. Ou serei conivente? É algo em órbita mesmo que seja um filho?…é o meu cão! Ainda por cima um cão que nem marca registada tem. A velha é uma nojenta! tem 97 anos, nunca morreu, tem oito filhos, dos quais três faleceram e ela intacta como um muro a sabor a cimento. Deve ser da naftalina. E vê-se no olhar dela, são faíscas bombardeadas de inexpressão. Evito aquele olhar, nem é olhar, são olhos, duas coisas arredondadas, sempre iguais, sem espaço para um decilitro de lágrima.
Quatro bocados de papel higiénico catados, dois cilíndricos produtos do intestino. E eu sei lá se foi o meu Elias! Há pelo menos mais dois respirantes de quatro patas neste aglomerado de betão! O raio da velha, deve ser má má como as tempestades, e Deus a resguarda connosco, deve ser para gozo, só pode! Me disse o dedo ocular de uma amiga dela que não tomava banho e que dormia coberta por um lençol de linho puro. branco como naftalina.
Segundo o filho mais novo e o mais tóxicodependente deles todos me disse “É ruim a velha, a única doença que teve foi uma unha encravada e uma espécie de gripe das aves. Uma vez caiu e bateu com a cabeça numa cadeira…quem se partiu foi a cadeira.”
Raio da velhaca. E depois queixam-se nas objectivas da TV, que coitadinhas, os filhos as tentam envenenar com bolas de naftalina no Natal.
Vá Elias, para a próxima faz bolas de cianeto à velha.
O SNOB FORRETA CULTO
Ele liga sempre para o telemóvel da minha mãe por ser da mesma rede. Assim a pesca fica mais barata.
DL: olá Bé, vai haver um concerto de Música Jazz, já tenho os bilhetes. Vens ter ao sítio do costume à mesma hora?
Florbela: sim, claro. Até logo.
Odeio Jazz, mas o Diogo Luís é muito dado a concertos e a desconcertos. O sítio do costume custava-me 100km no total, sem contar com as contas do depósito.
DL: olá estás boa, a tua semana foi boa? A viagem foi boa? Bem…vamos lá que aquilo deve estar a começar…ah! Limpa bem os sapatos antes de entrares no carro. Eu limpei as solas até ficarem mais brilhantes que a cabeça de um génio.
DL: olha – enquanto desdobrava cuidadosamente um pano azul para acariciar o volante e tudo o que o rodeia – antes ainda tenho que meter gasolina, ok? Dá aí 15 €, por favor.
Florbela:…15 €? Ok…parece-me muito, eu venho todos os fins-de-semana namorar contigo e nunca te estendi a mão para me pagares a meias a viagem, ou seja, metade de 100 Km são 50 Km. Meto 25€ de gasolina, por isso passa para cá as metades!
DL:…hahahhahahahahaha…ai Belinha….que forreta! Só pensas em dinheiro…
Chiça! E não é que não me pagou mesmo, pensava que eu Florbela estava a brincar, mas o meu sentido de humor não é assim tão a meias com o dele. Ele que se diz tão delicado e “senhor” com as “senhoras”? Devo ser mesmo muito burra, mesmo muito. Igualdade entre sexos, diz ele. A melhor desculpa de um forreta sovina para nem pagar um pingo clarinho à namorada. Tem que ser tudo a meias. Depois gaba-se e baba-se que me trata como uma raínha. Uma raínha na realidade não tem necessidade que lhe paguem um jantar ou um par de sapatos comprado na feira.
DL: nem imaginas a sorte que tens comigo. Passeias, levo-te a concertos, exposições, a restaurantes de luxo…se não fosse eu de certeza que ninguém te tirava de casa. Eu cultivo-te…és uma sortuda Bé…chuac
Outro? Outro que julga que antes de me conhecer eu não existia ou estava em estado de coma profundo há pelo menos vinte e oito anos? Porquê?
DL: chegamos! Cuidado com a porta ao saíres do carro. Pega o bilhete do concerto, são 20 €.
Florbela: não tenho aqui o suficiente, eu vou ali à caixa de Multibanco levantar e já volto. Poça, nem me acompanha…que “senhor”…
Ele: está bem, eu espero, mas despacha-te, quero apanhar os melhores lugares. Ah! Não te esqueças de levantar mais 1,25 das portagens!
Volto? Volto ou não? É melhor voltar, estou longe de casa e sem dinheiro para um comboio e nem conheço bem esta terra. Voltei.
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