Mulher-Porca, Homem-Porco

Encontrei um amigo enquanto espreitava uma montra “será que aquela mini-saia (minissaia) simpatizaria com as minhas pernas?” Setenta e cinco Euros? Por um pedaço de manga cosida?
Raul: Bendita? Há quanto tempo! Que bom ver-te. Que tens feito?
Benedita: tenho olhado para as montras. E tu? Já não te via desde que o Tito te deu um soco por espreitáres as minhas pernas ahahahahah…
Raul: ui, pois foi, ía ficando sem teclado. Eu nem estava a olhar para as tuas pernas, tinhas um foguete nas meias. Bem, mas isso já foi há quê, oito anos? Sabes…casei! Agora só me é permitido olhar para o foguete da minha mulher ahahahaah. Tenho uma filha com três anos, a Raquelinha.
Benedita: parabéns Raul, só novidades. Eu tenho um cão, o Eliazinho.
Raul: não te casáste? uma mulher como tu?
Benedita: claro que não!! Uma mulher como eu é mais independente que a Suiça, mas não me faltam candidatos, não tenho é feito muitos comícios ahahahahahha.
Raul: já que aqui estás, vou-te mostrar a minha casa.
A casa era vizinha da montra da mini-saia (minissaia) de setenta e cinco Euros. Entrámos e de imediato o cheiro provocou-me sismos no estômago (e eu a sismar ainda com os sismos).
Raul: queres alguma coisa, um café, água, bolachas…
Queria sim sair dali, não só pelo cheiro, mas pela sisma daquela saia na montra.
Benedita: vai ter que ser rápido. O meu cão tem uma consulta agora no calista. Eu dou-te uma ajuda.
Céus!! Que cozinha! As minhas solas colavam nos azulejos a cada passo caminhado. Que mulher tão pouco higiénica, aliás, que casal tão pouco higiénico. Os homens são tão eficazes nas limpezas como as mulheres, a não ser que possuam incapacidade física ou alguma alergia. Ai a banca!! Pareciam os destroços do World Trade Center. Tentei retirar alguma louça acumulada, vi comida ressequida e bolor suficiente para dar e vender penicilina às Indústrias Farmacêuticas. O Raul mostrou-me fotos da mulher e da Raquelinha. Reparei que ela tinha uma saia gêmea à da montra. E disse ele que agora só olhava para o “foguete” da mulher? Aquilo é o Enola Gay.
Benedita: tenho mesmo que ir. Já está quase na hora da consulta. Adorei rever-te.
Raul: aparece quando te apetecer, gostava que conhecesses a minha família.
Ainda censuram as mulheres quarentonas sem filhos? Aquela casa tem todas as permissas de futuros traumas para qualquer criança. Deixará marcas na idade adulta. O meu cão sim, é bem tratado, nunca lhe espetei com agulhas, não o ponho em água a escaldar, não o afogo e tem o pratinho dele asseado. Mães? Só essas merecem ser designadas de “Mulheres”? Poupem-me! Assim também poupo setenta e cinco Euros.
Cheguei a casa e lá veio o Elias mais veloz que o Michael Shumacher ter comigo!
Elias: olá mãezinha!…já tinha saudades tuas!
As Outras
Quando a Lurdes surge sem avisar é como os sismos (lá estou eu a sismar com os sismos). Não avisam, mas quando entram fazem estragos. Não passou a mão pela cabeça do Elias, ele aos saltos e a cauda em hélice que o fazia desequilibrar. Ela é doida por ele e nem o viu sequer. A coisa é grave! Chorava de tal maneira que o rímel com que disfarçava as brancas do cabelo, faziam-na parecer a Tina Turner.
Benedita: que se passa? Morreu alguém? Estás doente?
Lurdes:…..não…ic….foi o Lecas. Deixou-me….ic…pela ex-mulher – Choro, choro, choro – eu sabia…ic…passava a vida a falar dela e ela a vida com ele…ic…
Benedita: que esperavas de um homem com esse nome? Lecas? Faz lembrar um meia-leca em que tudo é metade. Tu sempre foste uma “metade” e a ex outra, só que a metade dela é uma fatia maior, não necessáriamente a melhor (geralmente não o é), mas os “meias-lecas” não são inteiros. Deixam tudo a meio ou para trás.
Lurdes: é sempre a mesma coisa, estou farta!…ic…as ex deles são sempre as melhores, até a descascar batatas, mesmo que nunca tenham descascado nenhuma. E tudo lhes faz lembrar elas, até nomes de detergentes, tudo serve…..ic…e até os defeitos delas eram qualidades, enquanto que eu só tenho defeitos…iicc…
Chora e o rímel espalhado pelo rosto, parece uma Cabo-Verdiana, só se vêem os olhos verdes dela.
Benedita: minha amiga, conheço bem esses estranhos seres, se conheço…mas ouve-me com atenção: tu também irás ser a mulher-obsessão de alguém algures, basta que sejas a ex.
Lurdes: ai Benedita….ic, não te importas que fique a dormir aqui esta noite?
Elias: eu cedo-te o meu lugar favorito!! É todo teu!
Lurdes: ai Elias, se todos os homens fossem uns cães como tu…ic…
Futebol?

Futebol…outra vez? dez ou onze tipos atrás de uma bola enfurecidos, o público como se estivesse na guerra do Iraque, fotógrafos e suas extensas objectivas para captar o penteado e as tatuagens do Ronaldo. O Elias no seu lugar cativo, equipado consoante o clube que mais anseia dar tareia à bola. Nem saboreia a comida, é sempre à hora do jantar! Eu vou para a cozinha. O meu pequeno televisor é-me útil nestas alturas, fico a saber que no Inverno neva , faz frio e até chove!! Fico a conhecer todas as doenças existentes em Portugal e a que mais mata. Fazendo as contas, são todas. Aprendo tanta coisa útil, há desertificação no interior do país…sabiam? E larápios mascarados de médicos que retiram cirurgicamente a doença dos velhos reformados: as suas reformas. Só novidades! Ou então a menina Lisete foi abandonada pela mãezinha, e agora a mãezinha da menina “Lisete” luta pela sua custódia. Toda a gente fica a saber quem é a “menina”.
Benedita: Elias, chega-te para lá e passa-me as batatas fritas, a cerveja, o toucinho e os salgadinhos. Quem está a perder? Fora de jogo? O que é isso? Quer dizer que já acabou o jogo?
Elias: os que estão a perder são aqueles que têm uns números nas camisolas.
Benedita: ahhh….*
Calosidade ou Idade?

Eventualmente falam comigo aconselhando-me factos da vida, de pessoas “olha, devias fazer assim, porque a vida é isto e aquilo, se eu fosse a ti, e porque te aconselho blá blá blá…”
Tenho a sensação que me vêem com dois elásticos com borboletinhas ou joaninhas adornando o meu cabelo aos totós e a lamber um enorme chupa-chupa colorido. Sim, sei que não sou um jovem desleixada acabada de casar, cheia de ninhadas e com dez pesos de anos em cima, mas também não me assemelho à Floribela ou à Pipi das meias-altas. Quem se julgam, que se julgam? Para além deste rosto inocente e aparentemente melancólico, já a acne me abandonou há quase tanto tempo que esses “conselheiros”. As suas experiências são ou foram mais maduras que as minhas? Que sabem eles sobre mim? Diferença de idades não implica mais ou menos vivência e muito menos sabedoria. Vidas diferente? Isso é outra galáxia. Todos as temos. Podemos aconselharmo-nos uns aos outros consoante a nossa calosidade, até uma criança com totós lambuzada de chocolate a alguém com cabelo grisalho e rugas em vez de acne pode ensinar tanto…
Rafeiro de Marca

Levei o cão comigo a uma esplanada à beira-mar. O vento mutilava com desagrado a vista dos tons azulados e esverdeados do montanhoso mar. Em época sísmica temi que essa montanha de água veria a terra como uma auto-estrada. Sentei-me, cheia de frio e de vento, mas era a esplanada que eu queria, pronto! O Elias salta para o meu colo, a vibrar como um telemóvel. Segundo a segundo olhava-me tristemente, as pálpebras baixadas até à menina do olho, sem me ver (culpa da água do vento e do frio).
Elias: tenho frio! Já sabes que só gosto de vir para esplanadas no Verão. Não sei porque me torturas a vida…
Benedita: apeteceu-me vir aqui. Deu-me essa obsessão. Tu é que quiseste vir, não me podes ver sair de casa que a tua cauda logo desaparece e deitas-te na almofada que mais odeias.
Elias: mas sofro com este clima…nem consigo abrir os olhos e babo-me todo.
Perto das ondas espumosas, um jovem atirava um pedaço de árvore para a água e o seu cão corria como um ladrão de Bancos em direcção às ondas e trazia às mãos do dono o pedaço de madeira.
Benedita: estás a ver? Olha aquele ali da tua espécie, hein? Corajoso! Aquilo é que é um cão, não um panilas medroso como tu. Ele fura as ondas, fica encharcado e nem pia. És um sortudo, estás protegido com o colete almofadado aos quadrados e de marca, que a tia Zélia te ofereceu nos anos.
Elias: faltam o gorro e as luvas.
Empregado: boa tarde menina. Que vai ser?
Benedita: uma Coca-cola bem fresquinha e com três pedras de gelo, por favor.
Elias: eu queria ir para casa, por favor! Ao menos no Verão ainda se vêem umas cadelas. Hoje está pelas costuras de mesas vazias.
Insolente, o bicho! E mal agradecido (malagradecido). Encontrei-o abandonado, magro e mais sebento que a banha de porco que uso para fritar. Veterinário sempre que espirra ou rejeita um biscoito de queijo e presunto, rua todos os dias, nem que chovam alfinetes, comida fresca, lugar cativo no sofá, banho de quinze em quinze dias, desparatização e mimos e mais mimos! Nem tem a dignididade de se sacrificar por mim umas horas que sejam. Não. Basta! Não pretendo um cão mimado menino da dona.
Retiro do chão um pedaço de pinheiro, caminho pela areia, ele sempre atrás, claro!
Benedita: busca cão!
Corre para as ondas como o Carlos Lopes, desaparece no algodão destas e reaparece com o pedaço de pinheiro na boca entregando-mo nas mãos. O colete de “marca” da tia Zélia ficou de uma só cor, perderam-se os quadrados no mar. Marca? Marca tem o meu rafeiro!
Benedita: vá miúdo, vamos para casa acender a lareira.
Sismo ou Sisma?
Deitada na cama, com o Elias a meus pés, já a noite atingira a maturidade e eu acompanhando-a. Televisão ligada. Vi-a um filme qualquer, aliás, olhava o filme e como habitualmente divertia-me mais com as asneiradas das legendagens do que própriamente com o filme em si: “á” onde deveria ser “há”; “hajam” em lugar de “haja”; “haviam” em vez de “havia”; a tradução à letra “I wouldn´t like to be on your shoes!” e a deliciosa tradução “não gostaria de estar nos teus sapatos…”, entre outros que vou recalcando, assim como o excesso de vírgulas e/ou a falta delas ou o famoso “pretend” que para alguns significa “pretender”. Pretend=fingir!!
O Elias ressonava e por vezes algumas convulsões nas pernas traseiras. Distraída com o filme e ainda mais com a película da minha vida, começo a sentir a cama a abanar, mas lentamente de um lado para o outro. O cão não era, estava mais calmo que o sossego, parecia um urso a hibernar. Ainda pus a hipótese de ser provocado por um pesado camião, mas desde que alisaram o asfalto da estrada, os pequenos tremores deixei de os sentir. Fora de questão. “isto é um sismo” pensei. Senti-me um bebé a ser embalado pela mão de alguém. O balanço continuou, sempre lento e constante. “levanto-me ou não da cama?” Deixei-me ficar, estática esperando ora que acelerásse ou abrandásse. Após alguns segundos de terra dançante, foi como se a música tivesse parado de repente. O Elias na mesma. O meu cão não deve ser mesmo cão, ou então não tem as qualidades perceptivas características dos animais. Antes de um abalo, eles usualmente pressentem as ondas sísmicas. A atitude dele seria latir sem parar, andar irrequieto, aproximar-se da porta ou enfiar-se debaixo de uma mesa ou cadeira, tremendo. Ao invés adormeceu e nem despertou com o abanão. Tenho um cão muito estúpido, ou muito humano que é quase a mesma coisa.
Olhei para o relógio e registei a hora do fenómeno.
Elias: o que foi? Aindas estás acordada? Que aconteceu?
Retardado.
Os “Pássaros”

Na minha fugaz presença na Universidade de Letras, havia um professor de Cosmologia (havia muitos, claro). As letras lidas sempre me baralharam uma parte do cérebro, mas em prol daquelas aulas às oito e trinta da matina, valia a pena abandonar os sonhos do sono. O Professor era um regalo: na moradia dos cinquenta e muitos, olhos azuis, bigode como a poucos é acessório valioso, inteligente, educado e humildemente sábio. Apenas tinha um defeito, uma coisa redonda no anelar esquerdo. Agradecia a nossa presença no final de cada lição. Quem ficava agradecida era eu.
No final de uma aula fui a seu encontro.
Benedita: Sr Professor, não sei se me consegue elucidar uma dúvida que tem sido uma sombra há alguns sóis: Porque é que uma mosca quando entra num automóvel em movimento acompanha de imediato a sua velocidade, não estando ela pousada e com a janela aberta? Ou porque razão quando saltamos, por exemplo dentro de um autocarro em movimento, caímos no mesmo ponto e não uns metros atrás?
Sr Professor: interessante a sua pergunta. Galileu colocou a mesma questão. Do cimo de um mastro, num barco em andamento, deixou cair uma bola de canhão, esta caiu a direito, nem para trás, nem para a frente.
Benedita: como é possível se ainda por cima um barco tem mais espaço aberto, poucos obstáculos.
Sr Professor: sim, mas já é outro “espaço”.
Incrível como o próprio espaço parecendo vazio e invisível provoca muros em corpos em movimento, não fazendo parte do mesmo espaço.
Benedita: qual a razão?
Sr Professor: leis da física, não existe própriamente uma explicação. É outro espaço simplesmente.
A sala começara a encher-se de alunos barulhentos e repletos de impropérios…os Senhores Doutores do futuro. Obrigou-nos a ocupar um outro “espaço”. Na continuidade da conversa sobre física e outros assuntos igualmente interessantes, olho para uma mesa e vejo um colega sentado em cima. pouco espaço avançou e estava uma outra também sentada em cima de uma mesa. E assim por adiante, eu nem os vira nem ouvira entrar. Senti-me inserida numa película do Alfred Hitchock, aquela dos “pássaros”, que surgem do nada, misteriosamente pousados em silêncio por toda a sala. Assustavam! Eram os melhores alunos, aqueles que têm que saber tudo, os ambiciosos, curiosos, os que se sentam quase no colo dos docentes e conseguem contar os pontos negros dos rostos destes.
Sr Professor: bem! E tudo isto por causa de uma mosca.
Que tipo de pessoa perde duas horas com uma aluna que se senta ao fundo da sala, mas perto da janela?
Espero que este Professor ainda leccione!
Cutchi Cuthi!

“Cutchi Cutchi, que fofinho!!”. Fofinha, corrige a mãe do recém-chegado. A Lurdes não pode ver bebés, como uma anoréctica não cheira calorias.
Lurdes: não achas querida, Benedita?
Benedita:…sim, parece um algodão doce…
Fofinha? Querida? Que bebé tão mal parecido (malparecido). A cabeça parece um repolho vermelho, tem mais pêlo nas bochechas que o meu Elias, nariz viscoso e doses de leite ressequido em órbita da boca (boquinha…). A Lurdes encantada “que linda menina…cucu, cucu!” A mãe, por detrás de duas inchadas lentes mirava a recém-nascida. A lurdes pega na “coisita”.
Benedita: ó Lurdes, não fecháste bem a moleirinha? Pegar num bebé requer a autorização da mãe!!
A mãe que não era mãe, mas cunhada do pai pouco se amanhou. Abana-a, brinca, dá-lhe trincas do nariz, emite sons de golfinho, até que a criançinha acaba por boçar não em cima dela, mas na minha camisola favorita. O líquido começou por aterrar no ombro e escorrendo como o ranho da menina ao longo de todo o braço. E aquele cheiro a leite azedo!
Benedita: bolas Lurdes, não consegues resistir mesmo a bebés, mesmo os sebentos! Já alguma vez pensáste que um dia crescem e muito rápido, tornam-se mal educados (maleducados), dão tareia aos professores, metem-nos em caixotes de lixo, lutam ferozes pela posse dos seus “irmãos” telemóveis, vestem-se mal, abandonam animais e bebés e alguns viram pedófilos, violadores, agressores…podem ter maus genes, etc.
Lurdes: ai, Benedita, és tão fria e insensível! Pensei que gostasses de rebentos. Negativa!
Benedita: pois essa aí é que “rebentou” na minha camisola e ainda me atira a chupeta à cabeça!
A cunhada do pai retira dois lenços , mas não para higienizar a “fofinha”, mas esfregá-los nas lentes, um para cada uma. Reparei no cabelo dela. Um nojo, até o meu carro tem menos óleo. Entrega a pequena à mulher, esta sempre com cara de lente de contacto, levanta-se e sai do Metro.
Lurdes.: …aaaaahh….adoro crianças….dão-me tanta paz e serenidade…
Benedita: sim eu tembém gosto, essêncialmente de quem os deita cá para fora. E por favor, nunca mais me obrigues a andar de Metro. Perdi a minha camisola preferida.
Lurdes: preocupa-me essa tua frieza crua. Só gostas de cães. Que estranho.
Benedita: gosto pois, daquele(a) que um dia me há-de pedir para ser meu filho(a). A esse(a) não lhe será permitido atirar com docentes pela janela, ou matar colegas, professores, auxiliares de educação com uma caçadeira mal ponha os pés na escola!
Lurdes: que sinistra! O teu rebento vai ser um infeliz. Hmmm que bom…fiquei com o cheiro da bebé…hmmm ora cheira, cheira!
Saí na paragem seguinte.
Que Dia é Hoje?

“Menina, que dia é hoje?” Informo o dia, mas não a data, só o dia. É quarta-feira. O homem do jardim, como o rotulei, não conhece outra frase. Talvez se perca no jardim, no meio da natureza que embora em constante mutação, é morosa. Talvez não o rasgue ou o atravesse. Habitualmente é um ponto de passagem para mim aquele jardim, vejo o homem e logo me aborda “menina, que dia é hoje?” é quase diário como os dias, apenas não o vejo eventualmente quando não o vejo.
Não consta indigência superficial, 70 jardins cumpridos, revestido de verde, como se fosse clorofila e aparentes vestígios de higiene.
Certo dia em que eu nem estava segura do dia, das horas e muito menos do ano, o homem clorofila do jardim aproxima-se ” menina que dia é hoje?”. É quase diário comos os dias, apenas não o vejo eventualmente. quando não o vejo. Não aparenta indigência superficial, setenta jardins no máximo, vestido de verde e aparentes vestígios de preocupação higiénica.
Certo dia em que nem eu me sentia segura do dia, das horas, nem do ano, o homem clorofila do jardim aproxima-se “menina, que dia é hoje?” Improvisei uma segunda-feira. Passeava o Elias que com a pata frontal insinuou-se e abanava as orelhas ora para a direita, ora para a esquerda “É Quinta-feira, burra!!” Cala-te cão e faz o que tens a fazer! O homem agradeceu educadamente e seguiu verde pela relva até deixar de o distinguir.
Dias e dias sem o ver. Agora me pergunto: seria uma alma perdida, esquecida, esperando a resposta certa para visualizar a luz, uma alma esquecida à espera de ver a luz e segui-la intuitivamente? Acreditou que seria aquele dia, o dia errado, mas o adequado para o homem que finalmente seguiu o caminho recto, mas o adequado para o homem que finalmente seguiu o caminho certo, acreditando em mim, e desapareceu não na rota da luz branca e promissora. Acreditou que aquele errado dia, o dia adequado para o homem que finalmente seguira o caminho certo, acreditando em mim, e desapareceu não em direcção à luz branca, mas tenho a certeza que atravessou a luz verde daquela natureza toda e continuará no jardim sem a necessidade de questionar “menina, que dia é hoje?” Agora pode ser o dia que lhe adoçar e continuará num jardim sem necessidade de questionar onde se encontra.
Era uma alma penada e eu depenei-o. Que dia é hoje? É o dia que te apetecer…
Soraya

TRIM TRIM TRIM
Benedita: está? Sim, está. Eu vou ver se está.
“É para ti, Elias”. Voz de cadela. Quem será? A Galga Afegã dificilmente suponho que seja, ele deixou de se perfumar há mais de um mês.
Benedita: Elias! É para ti! Estás com algodão nos ouvidos?
Elias: quem é, caramba? Estou a ver um programa sobre caça. Ao menos pergunta quem é, sim?
Arregaça as beiças, vejo-lhe os dentes, remexe-se por debaixo da manta às bolinhas e corações e afoga a cabeça no braço do sofá. Está mal humorado, o cão. Rosna como quem soluça.
Benedita: desculpe, ele pergunta quem quer saber dele.
Soraya: é a Soraya, conheci-o ontem no beco dos gatos.
Benedita: afinal és cadela ou gata?
Soraya: sou cadela, é claro. Não me misturo!
O Elias não morrerá muito fácilmente, por não ter ponto de curiosidade. Parece um penedo ali no sofá, sem ansiedade, distraído com um programa de caça, a manta no dorso e aquecedor alapado ao pêlo.
Benedita: ELIAS! Por favor, vem ao telefone! Não sejas mal educado como as crias dos teus amigos!
Elias: Bolas, Benedita, eu sei lá quem é a Soraya. Não conheci ninguém ontem e muito menos pus as patas no beco dos gatos…
Leva ao focinho um biscoito de queijo. Deve ter bebido o animal e depois fica com a memória de um queijo. Dá sempre o número de telefone e para quê? Elas não resistem ao seu charme e ele resiste aos avanços delas. Bom, vai-me obrigar a inventar e recordar-me do sabor a sabão na língua.
Benedita: soraya? ele diz que não te conhece e está adoentado, convulsões no estômago, uma perna dormente e com soluços. Deve ser engano, menina Soraya.
Soraya: conhece sim. Elogiou-me as botas brancas acima dos joelhos e o meu top com brilhantes cor-de-rosa e vermelhos. Depois declarou-se, que estava apaixonado. E francamente senhora dona do Elias: Elias não há muitos, lá bobis e fofinhos, etc há-os como gatos ao luar. Enfim, são todos iguais, são todos uns cães!
Benedita: peço desculpa por ele Soraya, mas ele teve uma grande depressão há pouco tempo, por causa de um osso de estimação desaparecido. Não o leves a mal.
Soraya: pois pois – desligou.
Voltei ao sofá onde Elias permanecia intacto e indiferente, como quem é casado. Deliciava-se com os leões a estriparem gazelas. Mudei de canal. Adiantou de muito, agora são humanos a explodirem com outros…
Não rosnou, nem me olhou pelo canto do olho.
Benedita: sabes Elias, és um cão!
Colesterol….

Comecei a interessar-me por Apicultura. Não pelas abelhas em si, mas pelo seu ferrão. Iniciei então um curso. A professora era uma “abelha”, sempre de ferrão pronto a acertar no que viesse..
Com a conveniente protecção meti-me na encruzlhada das produtoras de mel. eram tantas como zumbidos depois de uma noite numa discoteca com a música a metros de altitude e o cheiro era constante e absorvente. A professora permitiu questões e dúvidas.
Benedita: Srª Drª, é possível extrair o ferrão e o veneno destes pequenos listados amarelo/preto? Já fui picada algumas vezes e a dor nada se assemelha ao mel.
Srª Drª: que disparate, menina! não se pode nunca alterar a natureza das coisas, só porque a menina já foi foi mordida. Aproveite o mel!
Questiona outra aluna:
Outra Aluna: Srª Drª, de certeza que não existe a hipótese de extrair o veneno e o ferrão das abelhas?
Srª Drª: claro que sim. Através de manipulação genética e muita investigação. Mas o mel deve manter-se naturalmente doce, menina Lucinda.
A Srª Drª deve ter diabetes! mas não é que a minha questão e da outra aluna foram tão parecidas como um pêssego se assemelha a um alperce? Respostas opostas? É usual os Senhores Professores serem facciosos. É como o colesterol bom e o colesterol mau: um aluno questiona o mesmo que outro, mas recebe informações diferentes. Um é o colesterol bom, o outro é o colesterol mau. Ambos somos colesteróis, mas neste caso eu sou o mau.
Vou desistir deste curso e estudar o veneno dos peixes-aranha, que apesar de um imenso areal, já calquei alguns. Esses só oferecem dor, nada de mel. Não quero diabetes como as da Srª Drª Abelhuda.
Senta, cão!!!
Torre de Controlo

A árvore de Natal de um Shoping, onde por vezes me oferecem o café (gostam da minha simpática auréola), parece uma Torre de Controlo Aéreo. As luzinhas azuis piscam como os olhos contra o vento, no topo desta uma estrela e uma luz branca que acende e apaga a compasso certo, sinalizando a sua altura. Vejo voando uma diversidade de aviões neste espaço, mas sem asas. Tem bastantes estrelas por toda a “torre” e ao olhá-las sinto-me também uma delas, sinto-me a própria Torre de Controlo, mas sem a luz branca intermitente no topo de mim para afastar aviões descontrolados, desfeitos, barulhentos…
Eu Vi Logo…

Toca à porta o Lau. Vou ao seu encontro, ainda de avental e touca na cabeça. O Elias louco a correr atrás de mim “sai cão, chato, não é para ti!”, a língua pendurada, não foi assim que o eduquei, mas cão é cão, não o posso converter a um de nós, humanos.
Não leio pensamentos, mas rostos são frases bem decifráveis. Cabeça semi inclinada para a frente, sorriso amarelo torrado, como uma torrada acabada de ser queimada e um “Benedita, temos que falar.”
Benedita: não precisas abrir as beiças, queres acabar tudo.
Lau: desculpa, mas a culpa não é tua, o problema é meu, não é teu. Não me sinto preparado para uma relação.
Benedita: errado! o problema é unicamente meu, por dar oportunidade e perder tempo com inseguros insatisfeitos como tu. Mas estou a ser alvo de alguma experiência?
Lau: desculpa…tu és impecável, bonita, boa rapariga, inteligente, mas não quero nada contigo…
Benedita: sou isso tudo e não aproveitas? Vocês homens são masoquistas ou são mesmo burros? É que já não é a primeira vez que os meus delicados ouvidos são arranhados por grãos de areia tão secos. Afinal de contas que querem vocês? mulheres cruéis, feias e burras como um cepo? Se vos aparece uma raridade como eu, oferecem-na de bandeja a um próximo “sortudo”. Evidente que o problema é meu…
O Elias rosna baixinho e foi-se deitar no tapete da cozinha.
Lau: desculpa…desculpa, tá?
Benedita: “desculpa desculpa” ao menos podias ter dado a notícia antes de começar a fazer o nosso jantar que me deu uma trabalheira inimaginável durante a tarde toda, com velas acesas e tudo…e para quê? Sai pela mesma porta por onde entráste, mas antes abre-me esta garrafa de tinto, que eu não tenho jeito para abri-las, só para bebê-las. Obrigada!
Abriu e saiu calado que nem um monge. O Elias, educado, acompanhou-o até è porta acompanhado de um rosnar indignado. Jantei com o Elias, bebi a garrafa de maduro tinto e ainda houve sobras, para aquele que um dia apreciará o meu prato.
Passeio Na Rua

O Elias passeia-me, mas ele é que faz “coisas”. Cão nojento! Snifa com gosto “coisas” de outros cães e quando se vêem em vez de se oscularem (de um só lado, porque assim é que é fino), olfactam as caudas, rosnam-se, brincam. Vá lá Elias, não tenho tempo para as tuas excêntricidades. Cheira tudo, caminha em espiral, pára de repente, agacha-se e “coisa”. Eu, como cidadã respeitável e civilizada levo sempre um saco de plástico para retirar aquilo do chão. É por isso que estamos em crise, há cada vez menos dejectos pelo chão, logo as pessoas calcam-nos uma vez num ano, mais ou menos e já não dizem tão frequentemente “Merda!! pisei merda. É sinal de dinheiro!”
Talvez seja mais sensato deixar o saquinho de plástico em casa e fingir que aquilo que o Elias faz foi a cadela da vizinha.
Para casa Elias! Biscoito!
Elias: uuauuu, adoro biscoitos!! arf arf arf…
Dores Lombares

A sexta-feira é o dia do DL telefonar e decidir o programa para o fim-de-semana. Ao longo da semana está morto, não telefona, não aparece na Internet, a não ser como uma bala, mas para ver as notícias e a meteorologia. Cumprimenta e vai, só tão raramente como neva no Porto.
TRIM TRIM (telefone fixo)
DL: olá Bé! não vai dar para nos vermos este fim-de-semana. Estou com uma terrível dor lombar, quase nem consigo caminhar.
Benedita: não consegues andar? já foste ao médico?
DL: pareço um velho. De qualquer maneira este fim-de-semana não há nada interessante para se fazer. Nenhum concerto, exposição, feira, nem um bom filme no cinema. Vai chover também.
Benedita: precisas de programas culturais para estares comigo? Sempre existe a possibilidade de te massajar o lombo de modo a aliviar-te do sofrimento, ou podes dar-me umas aulas de arte ou outra coisa. Pago à hora.
DL: não vai dar…fica para o próximo, está bem?
Benedita: olha, não fica para este nem para os que vêm por acréscimo. Já estou inchada como um balão e com a ponta do alfinete muito perto de o fazer explodir. Tens segredos a mais. Não sei onde moras, não sei a tua data de nascimento, humilhas-me por não saber o que tu sabes “o que é aquilo? Não sabes?? Ai, Bé, não sabes nada…tss…não me surpreendes, nada aprendo contigo, etc”
DL: …ai, o departamento de reclamações está aberto até às sete…
Benedita: não me interrompas! Antes de te conhecer eu já existia e deixei de existir debaixo do teu pedantismo. Posso não saber nada, mas uma coisa eu sei: não gasto mais tinteiro contigo nas páginas da minha vida, entendeste Luís Diogo?
DL: não sou Luís Diogo, sou Diogo Luís. Queres que vá ter contigo e conversamos melhor sobre isto?
Benedita: não te dês ao sacrifício. Envia-me mas é por transferência bancária o dinheiro do bilhete do cinema que “por acaso e esquecimento”, não mo pagáste. Trata também de arranjar uma professora ou alguém a quem não tenhas que pedir, caso alguém me pergunte “o que faz profissionalmente?” e tenha que inventar algo como “sou médica, faço autópsias.” Tem vergonha Leandro!
DL: não sou Leandro, sou Diogo Luís!
Nunca mais o vi.
Vou de Férias

Vai um mês de férias para o Brasil, o Diogo Luís. Vai todos os anos, tem albergue livre. Só dispõe na deslocação e nas garrafas de maduro tinto como moeda de troca “gastei uma pipa de massa com o vinho, tss.” Um mês incontactável, sem telemóvel “não gosto de ser incomodado quando entro de férias!”
Benedita: és muito estranho. E se eu quiser saber que não caíste num poço, não foste assaltado e decapitado, que não foste sugado por uma planta carnívora, que não te afogaram, ou que tiveste uma síncope no meio de nenhures? Como vou saber de ti? Não me facultas o telefone da casa dos teus pais, porquê?
DL: Já disse.Privacidade. A casa não é minha.
Benedita: pois, mas tu telefonas para o telemóvel da minha mãe para não gastares uma pipa de massa. Para além de teres o número fixo da casa dos meus pais. Privacidade? És algum agente do FBI ou uma estrela de Hollywood??
Homem doido, Jesus! Vai para casa de amigos à beira-mar, olhem a sorte dele. Itinerário: galgar as matas à procura de igrejas, catedrais e outros, dos estilos Barroco, Românico, Português, Gótico…
DL: eu envio-te uns mails de vez em quando.
Benedita: obrigada. Se fores atacado por um lacrau mandas-me um mail a avisar que foste desta para outra?
DL: se eu não chegar na data prevista e não te der notícias vai à minha quinta e tenta saber de mim pelos meus caseiros. O telefone da casa dos meus pais NÃO dou. Ponto final.
Ponto final irá ter a última frase desta relação. Foi, enviou dois ou três e-mails. Um dia chegou, vivo e de cd na mão de música Brasileira para mim. Para mim?? Ele ofereceu-me uma coisa!
DL: ah….Bé…podes-me emprestar o cd para eu o gravar todo?
Já estava a ficar preocupada, afinal não fumou nada proibido, voltou igual à sua imagem. O cd era para mim coisa nenhuma!
Estadias contribuídas
Desenho: Filipa Barrote
Entro no reluzente cristalino automóvel do Diogo Luís. Era tanto o calor que fazia derreter qualquer coração. Não ligava o ar-condicionado. Há que poupar o que não se gasta.
DL: ó Bé,caramba, não tens notado que eu é que me tenho chegado à frente em todas as estadias em que estivemos? – expressão preocupada de quem está às portas da fome.
Benedita: bem, se não te importares e já agora peço tesouros de desculpas por não ter reparado em tal falha minha, no minímo atingi a escala seis ou sete. Não tinha reparado que te tinha “abanado” tanto. Eu dou-te a parte que te pertence, cêntimo a cêntimo no final da viagem/passeio de estudo. Fazemos as contas e dividimos no final. É assim tão complicado?
DL: achas que vou andar com dinheiro vivo comigo ou em casa? Pensei que percebias que tens que contribuir na altura, alternadamente ou a meias, mas na ocasião.
Benedita: e porque não? dá jeito andar com notas, nem que seja para teres que as doar a algum inesperado assaltante, ou se não houver caixas de Multibanco por perto, ou se o cartão falhar. Qual o drama de eu te pagar em notas?
DL: não! eu não ando com dinheiro. Para a próxima por favor pagas tu as restantes estadias. Já sabes: comigo é tudo a meias.
O homem é o quê? Alguma instituição bancária? Com este calor e com esta chamada de atenção entre a igualdade dos sexos, senti-me ainda mais a ferver, quase capaz de o fazer derreter como um rebuçado, assim lentamente. Devo ter cometido várias injustiças com esta personagem na vida passada. Digo e repito! Ele terá sido um indigente e ao final do dia acumulava dinheiro das esmolas e eu abocanhava-o, mas em troca prometia-lhe comida. Levava-o a minha casa e entregáva-lhe à língua um naco de pão seco. Terei feito atrocidades dessas? Ainda lhe dizia “afinal quem te trata como um rei, quem? Ai, tens tanta sorte comigo.”
À chegada da próxima estação dormitória, fui levantar o pouco dinheiro que já tinha. Paguei daí para a frente as restantes noites.
DL: ai Bé, não entendo. Tens algum problema com o dinheiro, és sumítica e falas sempre dele…
Agora os raios solares afunilaram todos em sua direcção. Estão a provocar naquela cabeça o efeito das pastilhas que os adolescentes engolem.
Seguimos viagem com os lábios colados (não um no outro, Deus mo livre!). Eu, ansiosa por esmagar com o dedo uma mosca, mesmo no vidro ou no tablier, que ele ainda não viu ali a esvoaçar no seu mausoléum.
Lurdes
Desenho: Filipa Barrote
SMS: que fazemos aqui, querida amiga?
Era a Lurdes. Questiono o mesmo. Respondi como um professor que sem certeza da resposta a dar a um aluno, inventa. Inventar não é pecado. Se nada fosse inventado que fariamos cá? Por isso circulamos ciclicamente nas mesmas questões. Ela devia ter questionado: quem nos inventou ou nos improvisou terá se enganado em alguma fórmula e sem o querer criou-nos? Seremos um mero erro? Porque não? Um erro que nunca regrediu e sempre se encontra em progressão. “Esse” deve estar sentindo um arranha-céus de sentimento de culpa e muito provável sejamos pedaços “dele”, todos nós e assim juntamo-nos, afastamo-nos, perdemo-nos, na impossibilidade de nos refugiarmos noutros compartimentos se não este.
Que fazes aqui Lurdes? Contribuis-me com a tua amizade, crias os teus gatos, dás amor ao teu namorado, comes, bebes, dormes, sonhas…
Mulheres Baixas?
Desenho: Filipa Barrote
DL: que pena tss, tu não poderes. conheço estalagens de luxo, mas para ti são muito dispendiosas. Já não estava habituado a ter que frequentar sítios baratos…ai…sempre tive namoradas independentes e com algumas posses. Hoje por exemplo estava com vontade de ir a um certo restaurante, mas…tu não podes.
Esta alforreca devia de se drogar de vez em quando só para parecer normal, um bocado normal.
Benedita: olha lá DL, então que fazes tu comigo? Arregaça os punhos e vai à luta! Arranja uma advogada, juíza, médica, bióloga, professora…faz-te à vida, pois não tarda eu arregaço as baínhas e vou pescar um peixe saboroso sem espinhas a atravessarem-me na garganta.
DL:…tss…pois…mas tenho uma certa dificuldade em encontrar alguém com mais de 1,70 e tu sabes que o-d-e-i-o mulheres baixas.
E tanto peixe no mar, tinha-me que calhar este peixe-balão.
Galga por aí!

Que cheiro a perfume! Bolas, agora o raio do animal deu-lhe para se perfumar? Aqui há gato, digo, aqui há cadela. Tomou banho. As toalhas entornadas até dentro da bacia das mãos. É, o Elias nunca toma banho. Passa por mim nem me olha. Água em pêlo de cão e perfume combina tanto como um peixe e um gambá. Passa de novo por mim, de focinho aos céus.
Benedita: ouve lá, onde vais?
Elias: vou ter com a minha namorada, porquê não posso?
Benedita: pois…mais uma rafeirita que não vai saber onde deixar as crias…
Elias: rafeirita?? Olha quem fala…trazes para cá cada um que nem num dos muitos caixotes de lixo que esmifro encontraria. É uma Galga Afegâ, fica sabendo.
Benedita: ahahahha, essa é a raça mais estúpida que existe! Não são lá grandes pensadores, pensei que tivesses alguma coisa dentro dessa cabeça…ao menos tu!
Elias: por isso mesmo, assim completámo-nos. já ouviste falar em equilíbrio??
Bem…já, menos quando bebo alguns líquidos a mais. O cão não deixa de ter alguma razão. Certas teorias que me faziam confusão começam agora a fazer algum sentido único. Equilíbrio…complemento…
Cada vez mais adquiro sapiência com este rafeiro e nem é Doutor ou Engenheiro.
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