Na Moda

Bolas! não tenho nada para vestir, muito menos para despir. Observo o Elias, não queima fusível em particularidades aparentemente de leve decisão. Mas bolas! Nada. O tracção às quatro patas contenta-se com aquela cor rafeira, nem sabe se puxou ao pai ou à mãe. Seja Verão, meia-estação e veste aquela cor amarela a correr para o castanho, parece um daqueles quadros de feno do Van Gogh. Já eu pareço a imitação de uma revista de concursos de quem veste o melhor botão, as botas que se usaram no ano passado são como filetes de pescada do dia anterior, a pulseira fica super bem com o batom da miúda que nunca vi nem carnuda nem em ossos. Quem me dera ser cadela também. Tanto tinha que vestir como para despir. E sempre na moda!
A Esquecedora

Pensadores, pensantes, ignorantes, excêntricos…somos de tudo um pedaço destes. Eu que mergulhava ser mesmo era uma pensadora, assim para aliviar o vazio do dia-a-dia a lavar loiça, aspirar, desinfectar sanitas e outros. E às vezes me perguntam “Que tens feito?”, ao qual respondo: nada. E ficam a olhar para mim como se eu fosse um edifício em estado impludido. Eu respondo, frustrada com a minha vida de insecto” Mas tu pensas que eu sou quem, a Paris Hilton?”
Eu nunca pergunto o que as pessoas fazem, mas como passam elas.
EDUCAIDO-VOS!

Em um qualquer segundo encontro:
Ele: falando de viagens, nunca perdi bagagens – assoa o nariz – mas uma vez perdi o meu computador no wc do aeroporto de Cascais…
Benedita: Ah sim, interessante, eu nunca perdi bagagem nenhuma, mas sempre carrego as bagagens dos outros.
Ele: Pois – seguido de uma expressão de inteligência facial – Pois… – inteligência?
Benedita: Afinal que idade tens? Nunca me disseste, malandro – Sorrisos queridos com muitas rugas em redor dos olhos, nas patas de galinha, a galinha que o vizinho prefere – diz lá, não te acanhes…ihihihiihhi
Ele: Queres saber muito…
Florbela: ihihihihiih…..ihihihihiihhi
Ele: Nesse aeroporto vi a mulher mais bonita de toda a minha vida…era Linda, olhos verdes, mas indiferente a todos, sabia que era apreciada…uma coisa fora do normal…exótica.
Benedita: ……..
O que devia ter dito: Ouve Samuel, se tiveres ouvidos da tua idade…a tua avó ou bisavó não te ensinou que aquando na presença de uma senhora, não existe nenhuma, mas nenhuma, nem no espelho quebrado das histórias de fadas e bruxas, mais bela que aquela que está próxima das tuas fossas nasais? Sim, sei que não sou propriamente a Michelle Pfeiffer, mas também não me assemelho propriamente a uma deputada do Bloco de Esquerda.
Distraía-se com a chegada de uma tosta mista. Eu distraíra-me com a chegada de uma bosta vista.
SALTO EM ALTURA?

DL: Não consigo entender aqueles casais em que ele é mais baixo que ela, ai sei lá – um dedo no queixo, inteligente, ou a querer parecê-lo – é ridículo, não achas Benedita?
Benedita: Bem, eu não sou propriamente a Cláudia Shiffer em altura, mas também não sou propriamente a Edit Piaf, mas que falta fazem alguns centímetros de alma? A menos ou a mais?
DL: É isso e mulheres com cabelo aos cachos…ai, eu não era capaz…
Benedita: Diogo Luís, o meu cabelo é liso, a minha cabeça toca o teu ombro. Porque será que não te vejo?
AO TEU LADO

Cavalo alado, cão ao lado. Tenho tanto cão ao meu lado e sinto-os no bafo, é quente e feio o bafo deles, mas ao mesmo tempo tão aconchegante, tão contentes aos pinchos por me verem, depois de segundos de ausência, tão parecidos contigo, que não me recordas há meses. O meu cão não tem ex mulheres nem ex cadelas, ele só a mim arregaça as quatro patas até ao limite, e beija-me, cheira mal, é peludo, é feio…é o meu levantar quando não me apetece, é o meu cão ao meu lado, quando não me apetece ter-te ao lado.
ENCONTROS IMEDIATOS
Um dia destes fui a um primeiro encontro. Um primeiro com o vislumbre de muitos outros primeiros…enfim. Sempre acreditei que a primeira impressão fica carimbada. Nem sempre. O carimbo às vezes está desbotado, gasto ou alguma peça se desprende na pancada em um outro papel. Seja como for, a primeira impressão sai sempre mais clara que a gema.
Ele: olá. Chegaste há muito?
Benedita: Não, cheguei agora mesmo, vim mesmo atrás de ti, não me viste?
O que deveria ter dito: Bolas pá, estou aqui à tua espera ainda o meu relógio teimava em demorar os goles de café, tantos e fartos, escuros como o motivo que me trouxe a este lugar.
Ele: Desculpa lá o atraso, demorei mais que o previsto com um cliente.
Ele: olá. Chegaste há muito?
Benedita: Não, cheguei agora mesmo, vim mesmo atrás de ti, não me viste?
O que deveria ter dito: Bolas pá, estou aqui à tua espera ainda o meu relógio teimava em demorar os goles de café, tantos e fartos, escuros como o motivo que me trouxe a este lugar.
Ele: Desculpa lá o atraso, demorei mais que o previsto com um cliente.
Benedita: Não faz mal, eu também estou desempregada, por isso não tenho clientes que me façam atrasar encontros.
O que deveria ter dito: Por favor Joaquim, eu esperaria por ti até que a sombra me resfriasse. Se bem que tinha umas tulipas para regar, mas encarreguei a minha neta mais nova que diz querer ser jardineira, como um rapazito se diz astronauta ou bombeiro…bem nos poderíamos alimentar desses bons gestos, descobrir o que há para descobrir e apagar fogos sem fumo.
Benedita: Não faz mal, eu também estou desempregada, por isso não tenho clientes que me façam atrasar encontros.
O que deveria ter dito: Por favor Joaquim, eu esperaria por ti até que a sombra me resfriasse. Se bem que tinha umas tulipas para regar, mas encarreguei a minha neta mais nova que diz querer ser jardineira, como um rapazito se diz astronauta ou bombeiro…bem nos poderíamos alimentar desses bons gestos, descobrir o que há para descobrir e apagar fogos sem fumo.
TEM JUÍZO
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Quando acordo às vezes, quando acordo, nem sempre o faço, por não me apetecer ou nem valer o esforço, ele espera-me numa das arestas do quarto. Aqueles olhos parecem tão reais como o facto de me ter encostado num desses tons azulados da indiferença. O meu cão dá sempre sinal quando ele se senta aos pés da minha cama, não para me perdoar, mas para me pedir perdão do pecado que não cometi. Poça, afinal para que serve o tal juízo final? Eu perdoo-te!
A imagem não é Bosh, é Brueghel.
MATERNIDADE RESPONSABILIDADE

Ele: Não trabalhas? Não tens filhos? Nunca foste casada? Não tens filhos? Com essa idade? Poça, porquê? Não é normal!
Benedita: Achas?
O que Benedita devia ter respondido: Quando ponderei ter crias, vinha-me à mente o progenitor e pela consciência da portadora da cria e pelo da mesma em relação aos candidatos a tal alicerce, assentei os meu dois pés, com os cinco dedos de cada lado e pensei: poça, ter filhos? É bonito, é lindo…e depois? Quem é o pai, quem são os pais? Porque vão eles para o Canadá ou para o Chile? Quem sustenta as fraldas, o leite, a roupa, a escola, o pediatra, as noitadas, a universidade, o desemprego etc,etc, quem?
Ele: …Sei lá, eu não de certeza…
Já não sei mais como sofrer por ti
Comprei uma cerimónia daquelas que não nos faz corrigir à pressa as palavras que detestamos bater aos outros. Não sei, não me apetece…não me apetece sofrer por ti, não me apetece e pronto! Não o sei sequer beber ou o destilar dentro da minha tão somente e sólida consciência de todas as coisas e…e não, não me apetece sofrer pelo meu sofrimento por ti que o sugas fugaz e voraz e despejas nas estrelas reflectidas no céu muito teu, por ti criado na áurea invejável ainda que a veja no tapete pisado pelos meus passos tão cegos, tão surdos do teu prazer que roubas sem pressa e sem medo de me deixar rastro, porque de mim não esperas o tiro fora da culatra e depois, depois? Respiras sem sair de cima de mim…Expiras-me!!
Mas se saíres, sai de vez para que eu possa finalmente transpirar sem me ofegar no cheiro que me queres render ao teu.
Sai porque já não sei mais como sofrer por ti!
Daltónico
Despe a cor que te tens por ter, daltónico destas cores, não surpreende que não as queiras ver como as são para as nossas cores, tão coloridas e cinzentas às vezes, como a cor do olhos que vês a cor que não é insípida…tem sabor a cor que não saboreias…
Compota
Queixei-me eu por não ter um pão para espalhar na compota, e a compota a chorar o pão, o pão que não comes, porque não queres, porque desististe, porque não te comportas na compota, e o teu pão seca para a compota não comportar…
Espelhos
O casal não conversa. De frente um ao outro flagelam silêncios de presença. Palavras? Para quê? São diferentes um do outro, sim…mas haviam de ser iguais como reflexos um do outro? Para quê? O silêncio respeita a essência do espelho que não se quer quebrado.
O Sábio
O louco sábio pergunta ao sóbrio subordinado que contas faz ele de cabeça. Responde o subordinado que contas faz aos anos que respira e as vezes que inspira. O sábio calcula na máquina, o subordinado calcula no tempo.
O teu chão
Subi ao eixo do meu chão e vi-te lá, de mãos inchadas, implorantes das minhas sem tacto, sem linhas nelas desenhadas alinhadas com as tuas. Não te quero nas linhas da minha mão, porque insistes que elas existam nas tuas? Apaga-as, vai ao curandeiro, ao corrector da vida, vai a Deus e queixa-te das linhas tortas que Ele quis escrever direito.
Anjos vs Anjos
O anjo da guarda despedido em contra mão de encontro ao meu anjo despedido:
- Pá! Que fazes aqui?
- O mesmo que tu, possivelmente…que te fizeram às asas?
- Asas? Eu não tenho asas, agora tenho fibras sintéticas prolongadas a partir das omoplatas.
- Foste despedido…tal como eu, não enganas os teus semelhantes nem que não tenhas asas, todos as vemos.
- Asas?? Não gosto de bebidas fictícias, dessas para canalha das raves e festas transe…
- Ó colega dos céus. Foste despedido? Quem foi a alma insatisfeita?
- São várias já. Elas bem me querem, mas eu não resisto a uma noite em discotecas e bares e depois…depois abandono-as, essas almas que delicadamente contam comigo e depois…depois…elas que se desenrasquem!
- Agora andamos aqui penados e elas, essas almas que nos despedem sem direitos sentam-se ao lado de Deus…nem são anjos caídos, como eu que me atirei de um 26º andar e aqui ando a responder a anúncios…
- Todos precisam de anjos e ninguém nos dá valor, despedem-nos como se fossemos ratos e ratazanas vadios com pão sem pedir.
- Só se fores tu!! Eu cá sou requisitado por quem não me quer ver nem vivo. Cheiram-me como a uma flor sem odor e sem pétalas. As pétalas que desenham as asas que me vão sendo retiradas, são o pólen das abelhas sem ferrão.
- Não me chateies anjo estúpido!! Vai lá pedir emprego a uma alminha irrequieta! Tens é paleio!
- Paleio a meio de um discurso é tão verdade como as minhas asas serem depenadas sem dor sentir.
- Vai gozar outro. O meu último cliente, um senhor bonito e feliz despediu-me só porque o telemóvel não funcionou quando pretendia pedir uma pizza ao filho que não é dele.
- Eu fui despedido, porque pediram lasanha e não tinha queijo suficiente para derreter as veias dos filhos mimados e desprendidos e despedem-nos em burocracias assinadas por tudo ter
- Anjo da guarda, não há quem te guarde?
Sim, tu!!
Um anjo a tentar esmagar outro.
Ninho
O meu gato sonha contigo, cão. E tu nem o mereces, porque ainda te enrolas nas mantas nojentas dos meus canários falecidos, e depois herdaram as mantas os gatos e finalmente o cão que tu és e não desfazes o ramo que nasceu na minha árvore, já não tenho mais raízes para desposares o que não é teu nem meu…sai do ninho do gato filho de vários canários que nasceram fora do meu ventre e não apareças a não ser para pedires o luar que vi nos olhos que não te vêem…
Amiga sem rosto
Piscina
Na minha piscina encontrei o João. Estava no fundo com os pulmões na guelra. Eu mergulhei uma parte dos braços. Aquela parte que sente o impacto da água e não quer sentir o resto do corpo submerso.
O João agarrou um dedo do braço que mergulhou a falange da superfície do hidrogénio. Vi-o sem expressão e ele viu o túnel luminoso e o cão que fora atropelado há 3 anos, com mais braços que eu e mais patas e unhas, o cão do João lambeu a parábola que ninguém consentiu em vida.
Aprendi a respirar na piscina do João, a voar na superfície molhada, os pulmões a respirarem pelos olhos e pelas moscas que entram na superfície ambulante, independente do solo. Aquelas moscas que entram pela janela do automóvel e ali ficam pendentes, no ar…a gozar a minha dependência e eu sei lá o que menos…e o que mais…
Cães e Avelãs
O meu cão apaixonou-se por uma avelã que um dia passou pela esquina onde o esquinado deposita a urina. O meu cão nessa altura andava agonizado e enfeitiçado pelo patrão que o obrigava a varrer as ruas e vielas onde a avelã deixava a sua presença. A avelã apaixonou-se pelo meu quatro patas e dez unhas, mas ele não consentiu que os avanços dela travassem o conceituado sacrifício, aquele, o de varrer depósitos um minuto importante e noutro minuto deixado ao asfalto calcado por alguma marca de sola.
Ela, a avelã, na sua inocência feminina descascou como sabia um sabor que o meu cão trincou com os dentes errados, e errados os juízos dele perante a avelã, bela, carente e fascinada pelo quatro patas que o meu cão alberga e ela não…o meu cão, estúpido, respondeu-lhe na mesma esquina onde deposita tudo e tudo, o burro animal que nada entende de avelãs depositou um cheiro na esquina, cheiro esse letal. Ela não gostou. Entristecida e amêndoada, foi ela esquinada, um tipo de génio atropelado e resignado, uma estrela fora de órbita, como o meu cão, esse animal lerdo, que se enche de pulmão e ego uma parte de nós que não nos pertence enquanto seres desta coisa semi-redonda, chamada terra, onde todos somos quase iguais independentemente da estrela que se nos guia ou não, a uns mais que a outros e não porque são mais merecedores dela, mas porque a ponta do anzol para lá dançou, ao vento da corrente, sempre aleatória, porque o peixe não escolhe ser pescado para ser melhor saboreado e que bom é temperado a nosso gosto.
Meu cão e minha avelã, não se separem na reciclagem do desentendimento, são iguais na sua reutilização.
Um burro cão e uma mula avelâ.
Muitos Cavalos
Enviei uma carta ao meu melhor amigo:
” Querido melhor amigo

Hoje não me apeteceu picar o ponto lá no emprego. Estou farta do meu patrão que tem um rosto redondo, um bigode farto e liso que reboca os lábios e as gengivas que não tem, mas que propõe alguns sons frustrados, de uma boca que bife não saboreou e agora saboreia o bife de quem não o tem. Odeio estes novos-ricos, ricos de pobreza e de automóveis velozes, asquerosos e nem lhes olho na via pública. Tenho vergonha, como se estivesse nua num WC destinado ao sexo masculino, sentada ao lado, o lugar da morta, óculos escuros e cabelo platinado…e depois saio do automóvel, vibrante como eu, e escorro alguns tentáculos pelo cabelo e ele os passa no veludo da capa do automóvel e despede-se de mim com um ósculo em ponto morto, um homónimo deste que mais me parece descansar a velocidade em ponto de embraiagem, mas mesmo assim temi que se assim não fosse, eu seria mais um pneu vazio na vida de um qualquer novo-rico
Morte Lenta
Exmo sr Ministro das Indefesas,
Eu gosto muito de si e até votei em você há alguns anos , é pena que não esteja no governo neste momento, porque me faz falta imensa, porque o meu marido me bate a todos os segundos da minha presença e da dos meus cinco filhos indesejados pela pílula que falhou e atingiu o útero distraído. Pedi ajuda à vizinha de cima, mas a única coisa que ela sabe fazer é arrastar móveis de manhã à noite, de segunda a domingo, com a muleta das socas e sacode-me o lixo que a consome nos beirais da janela onde aprecio o sol e o bom tempo, graças à poluição destes seres acomodados que me atacam o descanso destes rebentos todos, que nem dos nomes me recordo, se é Paulo ou Patrício, se Raquel ou Januária, se dois ou dez anos têm, datas incertas pela redoma da minha desatenção. Não me recordo senão da força adúltera do meu esposado marido, que me espanca a todos os segundos que me alembro de existir e que não sustento mais nem à lei da moral imposta pela auto defesa, que sou fraquinha de ossos. A minha mãe, também ela espancada até à outra vida o marido o permitiu, não me forneceu de cálcio suficiente capaz de suportar o peso desta dor calvária e não preciso do juízo final nem de juíz para me condenar o meu paraíso prometido desde a comunhão até à morte da minha promessa “até que a morte os separe”…nem que me mate ele!

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