PODES IR…
Ele: ah…desculpa, mas não te importas de ir embora?
Benedita: `tá bem, já vou…
O que Benedita devia ter respondido: Olha lá ó meu grande bode, pensas que sou algum estrugido ou o quê? Lá azeite não me falta, tu mo deste, mas não julgues que esse azeite me faz deslizar suavemente enquanto tu te deitas naquilo que secou…o azeite seco não cheira a futuro…
Entrevista Parte I

Hoje fui a uma entrevista para uma loja colorida de colares, carteiras e esses adornos que nós mulheres (algumas) não dispensamos. Entreguei o CV e omiti a minha idade. Cheguei ao espaço comercial à hora certa “é para a entrevista?” sim, digo eu, avolumada de sorrisos “Atão diriga-se ali ao local dos cafés, tá lá uma senhora de cabelo amarrado, debe tar a entrebistar algumas meninas. Tem cabelo amarrado e uma camisola branca e azule”. Poça, ser entrevistada no meio de lanches, sandes e sopas rápidas?? Lá fui. Vi a camisola azul e branca. Entrevistava uma candidata, numa mesa improvisada de escritório. Esperei. Levantei-me e dirigi-me ao “escritório” quando vagou a cadeira de coiro preto. “É para a entrevista? Tem que esperar, houve um atraso, tem mais duas meninas na recepção”.
Recepção = cadeiras e mesas espalhadas pelo recinto de restauração do aglomerado comercial. Moças salpicadas pela recepção, sem consumo ou oferta de café à conta da empresa.
Eu, muito simpática “ah sim, eu aguardo”. Sentei-me. Olhei de soslaio as rivais ao lugar dos colares. Eram mais jovens que eu…todas! A demora fez-me esperar em frente ao cubículo indicador das condições atmosféricas do recinto, publicidade das lojas, adivinhas, horóscopo, receitas, imagens de cenas caseiras com ebulições de piada, etc etc. Chiça, porque sou eu tão pontual?
Entrevista Parte II
Chegara a minha vez. Tenho a certeza que nunca olharam o CV antes.
Eles: Então Benedita, já trabalhou?
Benedita: Sim…
O que devia ter respondido: Não, oras, não tenho que fazer e contribuo para a depilação do arvoredo, e digo-vos, imprimir três folhitas destas, podia vos obrigar a pagá-las…
Eles: Trabalhou em loja, mas estamos aqui a ver que já foi há anos…bem isto não interessa…
Benedita: Interessa sim, faz parte do CV, é toda a minha experiência.
O que devia ter respondido: Não interessa? Oiçam lá ó parolos, onde estavam os senhores há 10 anos? Como aqui vieram parar? Não interessa? Pois não, tu, a da camisola azul e branca deves ter vindo aqui cair à custa de muito colar, brinco e pulseira, e o “muito perto do chão”, pela cor dos dentes deves ter muito pouco cálcio e pelas mãos de Bola de Berlim com dedos, tens pouco tacto de certeza…
Eles: que tipo de contrato teve anteriormente?
Benedita: Um contrato assim, assado, isto, aquilo, etc
Eles: Nunca ouvimos falar em tal tipo de contrato…
Benedita: Não? Mas era assim, assado, isto, aquilo, etc
O que devia ter respondido: Nunca ouviram falar? Onde estavam há dez anos? Pode ser que aprendam com os mais jovens e actualizados, não? Parolos!
Eles: Benedita, conhece as nossas lojas?
Benedita: Sim, assim por alto…
Eles: O que acha?
Benedita: É uma loja muito gira, tem muitas cores, alegria, mas a música deixa qualquer orelhinha sem vontade dos vossos brincos…
O que devia ter respondido: A-do-ro! Linda! Giríssima, aliás o meu maior sonho é trabalhar numa das vossas dependências, a principal razão do meu estado de desemprego é por nunca ter tido a oportunidade ambiciosa de fazer parte de tanta cor e música. Adoro música actual nas alturas dos decibéis.
Eles: Benedita, costuma usar adornos?
Benedita: Sim.
Eles: não parece… – acompanhados de meio sorriso.
Benedita: Trago estes enormes brincos, nem sempre utilizo toda a minha bugiganga – acompanhada de meio sorriso.
O que devia ter respondido: A-do-ro bugiganga. Aprendi que para uma entrevista não devemos trazer muita coisa pendurada…mas…e se fosse uma loja de lingerie??
Eles: Usa maquilhagem?
Benedita: Uso.
Eles: isso não chega. Deve utilizar algo mais carregado.
O que devia ter respondido: Uso claro, tenho inclusive uma paleta carregada de cromados em casa, mas hoje não tive muito tempo, porque tinha a panela no lume, mas sim, uso tudo que é tinta, até nas orelhas. À exaustão!
Eles: Importa-se de trabalhar até às duas da madrugada se for necessário? Não se importa de andar com o cabelo amarrado?
Benedita:…Bem, claro que não…
O que devia ter respondido: Até às duas da matina? Sim, claro, até porque trabalhar para vocês é um prazer, fico às duas, às três, eu viveria para e por vós! Cabelo amarrado? Deixei-o crescer dois anos propositadamente para o amarrar às orelhas das vossas condições. Que pergunta…estou à vossa e inteira cabeleira.
Eles: É que tem que usar o cabelo assim, para mostrar o nosso produto.
Benedita: De acordo!
O que devia ter respondido: Olhem, meus “senhores”, eu uso o cabelo até onde e como me apetecer, compreendido? Cada cabelo espigado tem uma história, e nada me fará apagá-las, nem as tintas dos vossos bordados, nem o pouco chá nas vossas vidas. Entrevistas para emprego na área da restauração de um centro comercial? Sem palavras…
Eles: Bem…está tudo dito então…- cumplicidade entre os dois – diremos entre hoje e amanhã, sim?
Benedita: Sim, aguardarei.
O que devia ter respondido: Não!! Eu fico, eu quero este lugar, não matem o meu sonho com esta espada fria e crua, por favor, pelos meus cabelos e maquilhagem, e pelas madrugadas, não me tirem tudo, não me tirem as brancas! Por favor!
Eles: Boa sorte…
Boa sorte para vocês também, parolos empregadores.
Fraco Rei, Fraco Vassalo.
EDUCAIDO-VOS!

Em um qualquer segundo encontro:
Ele: falando de viagens, nunca perdi bagagens – assoa o nariz – mas uma vez perdi o meu computador no wc do aeroporto de Cascais…
Benedita: Ah sim, interessante, eu nunca perdi bagagem nenhuma, mas sempre carrego as bagagens dos outros.
Ele: Pois – seguido de uma expressão de inteligência facial – Pois… – inteligência?
Benedita: Afinal que idade tens? Nunca me disseste, malandro – Sorrisos queridos com muitas rugas em redor dos olhos, nas patas de galinha, a galinha que o vizinho prefere – diz lá, não te acanhes…ihihihiihhi
Ele: Queres saber muito…
Florbela: ihihihihiih…..ihihihihiihhi
Ele: Nesse aeroporto vi a mulher mais bonita de toda a minha vida…era Linda, olhos verdes, mas indiferente a todos, sabia que era apreciada…uma coisa fora do normal…exótica.
Benedita: ……..
O que devia ter dito: Ouve Samuel, se tiveres ouvidos da tua idade…a tua avó ou bisavó não te ensinou que aquando na presença de uma senhora, não existe nenhuma, mas nenhuma, nem no espelho quebrado das histórias de fadas e bruxas, mais bela que aquela que está próxima das tuas fossas nasais? Sim, sei que não sou propriamente a Michelle Pfeiffer, mas também não me assemelho propriamente a uma deputada do Bloco de Esquerda.
Distraía-se com a chegada de uma tosta mista. Eu distraíra-me com a chegada de uma bosta vista.
SALTO EM ALTURA?

Outro primeiro encontro.
Ele: Não consigo entender aqueles casais em que ele é mais baixo que ela, ai sei lá – um dedo no queixo, inteligente, ou a querer parecê-lo – é ridículo, não achas Benedita?
Benedita: Bem, eu não sou propriamente a Cláudia Shiffer em altura, mas também não sou propriamente a Edit Piaf, mas que falta fazem alguns centímetros de alma? A menos ou a mais?
Ele: É isso e mulheres com cabelo aos cachos…ai, eu não era capaz…
Benedita: Querubim de Almeida, o meu cabelo é liso, a minha cabeça toca o teu ombro. Porque será que não te vejo?
AO TEU LADO

Cavalo alado, cão ao lado. Tenho tanto cão ao meu lado e sinto-os no bafo, é quente e feio o bafo deles, mas ao mesmo tempo tão aconchegante, tão contentes aos pinchos por me verem, depois de segundos de ausência, tão parecidos contigo, que não me recordas há meses. O meu cão não tem ex mulheres nem ex cadelas, ele só a mim arregaça as quatro patas até ao limite, e beija-me, cheira mal, é peludo, é feio…é o meu levantar quando não me apetece, é o meu cão ao meu lado, quando não me apetece ter-te ao lado.
ENCONTROS IMEDIATOS
Um dia destes fui a um primeiro encontro. Um primeiro com o vislumbre de muitos outros primeiros…enfim. Sempre acreditei que a primeira impressão fica carimbada. Nem sempre. O carimbo às vezes está desbotado, gasto ou alguma peça se desprende na pancada em um outro papel. Seja como for, a primeira impressão sai sempre mais clara que a gema.
Ele: olá. Chegaste há muito?
Benedita: Não, cheguei agora mesmo, vim mesmo atrás de ti, não me viste?
O que deveria ter dito: Bolas pá, estou aqui à tua espera ainda o meu relógio teimava em demorar os goles de café, tantos e fartos, escuros como o motivo que me trouxe a este lugar.
Ele: Desculpa lá o atraso, demorei mais que o previsto com um cliente.
Ele: olá. Chegaste há muito?
Benedita: Não, cheguei agora mesmo, vim mesmo atrás de ti, não me viste?
O que deveria ter dito: Bolas pá, estou aqui à tua espera ainda o meu relógio teimava em demorar os goles de café, tantos e fartos, escuros como o motivo que me trouxe a este lugar.
Ele: Desculpa lá o atraso, demorei mais que o previsto com um cliente.
Benedita: Não faz mal, eu também estou desempregada, por isso não tenho clientes que me façam atrasar encontros.
O que deveria ter dito: Por favor Joaquim, eu esperaria por ti até que a sombra me resfriasse. Se bem que tinha umas tulipas para regar, mas encarreguei a minha neta mais nova que diz querer ser jardineira, como um rapazito se diz astronauta ou bombeiro…bem nos poderíamos alimentar desses bons gestos, descobrir o que há para descobrir e apagar fogos sem fumo.
Benedita: Não faz mal, eu também estou desempregada, por isso não tenho clientes que me façam atrasar encontros.
O que deveria ter dito: Por favor Joaquim, eu esperaria por ti até que a sombra me resfriasse. Se bem que tinha umas tulipas para regar, mas encarreguei a minha neta mais nova que diz querer ser jardineira, como um rapazito se diz astronauta ou bombeiro…bem nos poderíamos alimentar desses bons gestos, descobrir o que há para descobrir e apagar fogos sem fumo.
TEM JUÍZO
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Quando acordo às vezes, quando acordo, nem sempre o faço, por não me apetecer ou nem valer o esforço, ele espera-me numa das arestas do quarto. Aqueles olhos parecem tão reais como o facto de me ter encostado num desses tons azulados da indiferença. O meu cão dá sempre sinal quando ele se senta aos pés da minha cama, não para me perdoar, mas para me pedir perdão do pecado que não cometi. Poça, afinal para que serve o tal juízo final? Eu perdoo-te!
A imagem não é Bosh, é Brueghel.
MATERNIDADE RESPONSABILIDADE

Ele: Não trabalhas? Não tens filhos? Nunca foste casada? Não tens filhos? Com essa idade? Poça, porquê? Não é normal!
Benedita: Achas?
O que Benedita devia ter respondido: Quando ponderei ter crias, vinha-me à mente o progenitor e pela consciência da portadora da cria e pelo da mesma em relação aos candidatos a tal alicerce, assentei os meu dois pés, com os cinco dedos de cada lado e pensei: poça, ter filhos? É bonito, é lindo…e depois? Quem é o pai, quem são os pais? Porque vão eles para o Canadá ou para o Chile? Quem sustenta as fraldas, o leite, a roupa, a escola, o pediatra, as noitadas, a universidade, o desemprego etc,etc, quem?
Ele: …Sei lá, eu não de certeza…
JANTAR??

Ao fim de um quarto encontro, não mais de meia hora cada e com vírgulas de conversas telefónicas interrompendo o diálogo que não aconteceu, ele sugere um jantar. Um jantar? Calhava bem, ando esfomeada, só maçãs e sopas me têm servido.
Benedita: Claro, combina então isso.
Ele: Olha, como já sabes não pode ser à sexta, sábado e domingo…
Benedita:…não?
Ele: Não! Aliás gostava de o fazer em minha casa.
Florbela: Em tua casa?
O que Benedita devia ter dito: Em tua casa? Mas por quem me tomas para me tomares assim de garantida? Ah pois…agora entendo aquelas tuas observações púdicas acerca das adolescentes com saias em forma de cintos…pois…comentavas que vestidas assim só para um jantar, na intimidade, etc. Pois…achas que nasci ontem? Ontem não, mas anteontem sim, ok?
Ele: Foste à praia? Qualquer dia vou ter contigo só para te ver de biquíni…
Benedita: ahaha… – riso com icterícia.
O que ele queria ouvir: Ai ó Joel, não precisavas de ir à praia para me veres em bi traje….ihihihiih….
É-se disponível, eles dispensam-nos mais depressa que umas meias usadas. É-se indisponível, eles dispensam-nos mais depressa que um choque em cadeia.
Espanta-me, mas não me espantes!
Ele: Sabes, é que eu sou como um apreciador de arte, neste caso vejo o aspecto do bolo, gosto de sentir o cheiro e depois tenho que o experimentar…
Benedita: mas olha lá, ó Constantino, achas que sou um éclair? queres um conselho? vai mas é amassar a massa que o Diabo ainda não amassou!
O INTELIGENTE E CULTO
Sentado em frente a mim, um snob com vestígios de espuma esbranquiçada nos cantos da boca. Não sei de onde aquilo surge. Ele até tem hábitos de higiene de monge:
Ele: olha Bé, eu costumava vir aqui a este restaurante imensas vezes com algumas namoradas, sabes…juízas, Advogadas, economistas, médicas, enfim, tu sabes. Por isso se o empregado te perguntar o que fazes na vida dizes, sei lá, que és professora de Estudos do Mercado, ok?
Benedita:…como assim??
Os meus neurónios nesse momento não tiveram a mesma velocidade do disparate que me chegara aos ouvidos. Bloqueei e continuei a refeição sossegada como alguém que recebe a notícia que não tem nenhuma gripe. Mas não é que este anormal tem vergonha do meu estado temporário de ócio forçado? Mas, que tem ele naquela cabeça para além de tinta no cabelo? Será que aquela espuma branca que lhe vai saindo da boca dessa mesma cabeça em decomposição?
Afinal que faço aqui eu frente e frente a um corpo que menos vale que um envelope sem cartão de boas festas?
Sei que não estou assim tão à beira do abismo das solitárias. Não…não pode ser…fiz de certeza algo de muito malévolo a este sujeito à minha frente numa vida passada, ai fiz sim. Ora vejamos:
Eu era uma Doutora de Estudos Europeus. Certo dia conheci-o. Passava eu com o meu fato de marca bem marcada, sapatos de salto em altura, enfim, uma executiva de fazer inveja às séries Americanas de mulheres muito sofisticadas. Levo mesmo na moleirinha com um azulejo e caio sem sentidos e sem fazer sentido ele veio socorrer-me, o trolha que assentava azulejos no prédio do edifício onde eu trabalhava. Gostou de mim. Convidei-o para jantar e para me acompanhar a um congresso. Sim, eu sabia que era trolha, mas “bateu-me” na cabeça. Comprei-lhe fato, sapatos, meias e até brilhantina. Fui buscá-lo a uma “ilha” no meu automóvel careca, ou seja, seja descapotável. E lá fomos às cerimónias. Bebemos vinho, Champanhe, cerveja, gin, aguardente e outras coisas. A certa altura, mais ou menos à altura dos meus saltos, e em que já nem o meu fato de estilista argumentava contra factos, gritei e humilhei o trolha em frente a duzentas pessoas.
Eu na outra vida: sabem uma coisa?? Este gajo é trolha…ahahahahhahahhah, é um asno saloio, não vale um chavo!! Ahahahahahahahaah….até tive que lhe comprar a roupa….e vive numa ilha…ahahahahahahah…trolha burro! Ic…ic…ic
Eu devia estar bêbeda quando me convidou para sair…ahahahahahaahh
A humilhação deve ter sido bem mais vergonhosa que os azulejos dos exteriores das casas de alguns emigrantes. Só pode ter sido isso que aconteceu. Estou a ser punida, eu mereço!
O que Benedita devia ter dito: ….como assim???
O SNOB FORRETA CULTO
Ele liga sempre para o telemóvel da minha mãe por ser da mesma rede. Assim a pesca fica mais barata.
Ele: olá Bé, vai haver um concerto de Música Jazz, já tenho os bilhetes. Vens ter ao sítio do costume à mesma hora?
Florbela: sim, claro. Até logo.
Odeio Jazz, mas o Diogo Luís é muito dado a concertos e a desconcertos. O sítio do costume custava-me 100km no total, sem contar com as contas do depósito.
Ele: olá estás boa, a tua semana foi boa? A viagem foi boa? Bem…vamos lá que aquilo deve estar a começar…ah! Limpa bem os sapatos antes de entrares no carro. Eu limpei as solas até ficarem mais brilhantes que a cabeça de um génio.
Ele: olha – enquanto desdobrava cuidadosamente um pano azul para acariciar o volante e tudo o que o rodeia – antes ainda tenho que meter gasolina, ok? Dá aí 15 €, por favor.
Florbela:…15 €? Ok…parece-me muito, eu venho todos os fins-de-semana namorar contigo e nunca te estendi a mão para me pagares a meias a viagem, ou seja, metade de 100 Km são 50 Km. Meto 25€ de gasolina, por isso passa para cá as metades!
Ele:…hahahhahahahahaha…ai Belinha….que forreta! Só pensas em dinheiro…
Chiça! E não é que não me pagou mesmo, pensava que eu Florbela estava a brincar, mas o meu sentido de humor não é assim tão a meias com o dele. Ele que se diz tão delicado e “senhor” com as “senhoras”? Devo ser mesmo muito burra, mesmo muito. Igualdade entre sexos, diz ele. A melhor desculpa de um forreta sovina para nem pagar um pingo clarinho à namorada. Tem que ser tudo a meias. Depois gaba-se e baba-se que me trata como uma raínha. Uma raínha na realidade não tem necessidade que lhe paguem um jantar ou um par de sapatos comprado na feira.
Ele: nem imaginas a sorte que tens comigo. Passeias, levo-te a concertos, exposições, a restaurantes de luxo…se não fosse eu de certeza que ninguém te tirava de casa. Eu cultivo-te…és uma sortuda Bé…chuac
Outro? Outro que julga que antes de me conhecer eu não existia ou estava em estado de coma profundo há pelo menos vinte e oito anos? Porquê?
Ele: chegamos! Cuidado com a porta ao saíres do carro. Pega o bilhete do concerto, são 20 €.
Florbela: não tenho aqui o suficiente, eu vou ali à caixa de Multibanco levantar e já volto. Poça, nem me acompanha…que “senhor”…
Ele: está bem, eu espero, mas despacha-te, quero apanhar os melhores lugares. Ah! Não te esqueças de levantar mais 1,25 das portagens!
Volto? Volto ou não? É melhor voltar, estou longe de casa e sem dinheiro para um comboio e nem conheço bem esta terra. Voltei.
Já não sei mais como sofrer por ti
Comprei uma cerimónia daquelas que não nos faz corrigir à pressa as palavras que detestamos bater aos outros. Não sei, não me apetece…não me apetece sofrer por ti, não me apetece e pronto! Não o sei sequer beber ou o destilar dentro da minha tão somente e sólida consciência de todas as coisas e…e não, não me apetece sofrer pelo meu sofrimento por ti que o sugas fugaz e voraz e despejas nas estrelas reflectidas no céu muito teu, por ti criado na áurea invejável ainda que a veja no tapete pisado pelos meus passos tão cegos, tão surdos do teu prazer que roubas sem pressa e sem medo de me deixar rastro, porque de mim não esperas o tiro fora da culatra e depois, depois? Respiras sem sair de cima de mim…Expiras-me!!
Mas se saíres, sai de vez para que eu possa finalmente transpirar sem me ofegar no cheiro que me queres render ao teu.
Sai porque já não sei mais como sofrer por ti!
Daltónico
Despe a cor que te tens por ter, daltónico destas cores, não surpreende que não as queiras ver como as são para as nossas cores, tão coloridas e cinzentas às vezes, como a cor do olhos que vês a cor que não é insípida…tem sabor a cor que não saboreias…
Compota
Queixei-me eu por não ter um pão para espalhar na compota, e a compota a chorar o pão, o pão que não comes, porque não queres, porque desististe, porque não te comportas na compota, e o teu pão seca para a compota não comportar…
Pequeno-almoço
Ainda de romela pendurada numa extremidade de um olho semi aberto pela madrugada que fora longa, a voz do outro lado do olho pergunta “que horas são?” olhei o pulso quase por instinto e o sol respondeu por mim. O sol não, a sua inclinação. Conheci-o na noite anterior. Algumas noites anteriores conheci uma foto, um retrato, um testemunho, um sorriso parado pela constante órbita terrestre. Encantou-me o sorriso! sei lá! Não estaria propriamente preparada para o salto ao abismo, mas sempre se arranja um bom pára quedas. Nem preparada nem à procura…mas…há sorrisos…perguntei à foto, depois de a adicionar à lista em ordem alfabética ascendente, se aceitaria um jantar. A foto sorridente aceitou. Ora, tenho dois filhos e um ex marido compreensivo, logo pedi que me desse um “break” e me deixasse perfumar o cachaço uma vez mais e sentir aquela ansiedade bruta de um primeiro encontro. Ele ficou com os meus filhos, permitindo-me aquele remexer de ao vivo apreciar uma voz e um cheiro novos! Não passara um mês em que a presença física do sexo oposto me espaçava o vazio. Não. Eu que nem estava à procura e sem pressa…pois! A condição humana desrespeita as palavras proferidas, que se lixe!
Pontual como os ponteiros do meu relógio, o restaurante esperava um acento à minha medida. Ele chegou dez minutos depois. O sorriso não era mentira, sentou-se e os olhos sorriram sem medida. Conversa, garfada, golada, silêncios, risos, distracções, impaciência, a mistela de ingredientes de encontros cegos. Cega o fiz seguir a minha casa, disse-lhe a vida pelas fotos espalhadas pela sala (até na porta do wc). A conversa previsível, a inteligência comprada e adquirida compraram-me a ingenuidade. Logo aos primeiros sinais que o globo terrestre se faz iluminar, sem que a crise petrolífera o impeça de seguir a sua viagem cósmica, a foto sorridente fala “ai, a minha namorada está à minha espera…adorei este pequeno-almoço”.
Também eu…adoraria repetir, mas para uma próxima não peça um “break” à sua namorada e traga-a também.
Para quem não procura algo, sempre alcança alguma coisa.
Espelhos
O casal não conversa. De frente um ao outro flagelam silêncios de presença. Palavras? Para quê? São diferentes um do outro, sim…mas haviam de ser iguais como reflexos um do outro? Para quê? O silêncio respeita a essência do espelho que não se quer quebrado.
Carraça
A carraça não escolhe o pêlo. As carraças parecem borboletas contentes esvoaçando de ar em ar e um dia surge aquele pelo fofo onde o descanso parece um pecado necessário. As borboletas são bonitas, sim. As carraças? Nunca lhes vi a cara…só aquela carapaça de caracol sem corninhos ao sol e as patinhas, pequenos ferrões ali agarrados ao cepo das criaturas, a sugar-lhes as correntes, Deus meu!! E retirá-las? Elas escavacam esconderijos, mesmo os pêlos mais rentes não oferecem trincheiras às malvadas voadoras sem belas asas, como as borboletas coladas virtuosamente em painéis de narcisistas sem pêlo no focinho.
Despedida
A minha prima foi despedida. Ergueu-se do sono com uma perna adormecida. A perna ficou debaixo do monte de tecido, a tela de grandes e pequenas metragens amadoras. Deixou-a lá simplesmente. A água correu o corpo, o leite e cevada a laringe. A perna continuou lá, em silêncio, o silêncio da preguiça. Foi despedida a minha prima pela perna que caminhava mais rápido que a outra.
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